Nas Curvas da Palavra
Há pessoas que dirigem bem.
Outras escrevem bem. Júlia nunca teve certeza de qual das duas coisas fazia
melhor.
Gostava de estradas. Não
das retas intermináveis, onde a paisagem parece desistir de surpreender, mas
das curvas. Curvas obrigam a diminuir a velocidade. Fazem a gente prestar
atenção. Exigem respeito.
Com as palavras acontecia a
mesma coisa.
Quando era jovem,
acreditava que escrever era chegar logo ao fim da história. Cortava caminho.
Explicava sentimentos. Dava respostas antes mesmo que as perguntas terminassem
de nascer.
O tempo lhe ensinou outra
coisa.
As melhores palavras eram
justamente as que faziam uma pequena curva antes de chegar ao destino.
Numa tarde qualquer,
enquanto organizava uma gaveta antiga, encontrou um maço de cartas. Algumas
tinham mais de quarenta anos. Outras nunca haviam sido enviadas.
Sorriu ao perceber que
conhecia perfeitamente a mulher que escrevera aquelas páginas, mas já não
falava como ela.
Havia exageros. Promessas
eternas. Certezas que hoje pareciam quase infantis.
Mesmo assim, não rasgou
nenhuma.
Cada carta era uma
fotografia de quem havia sido.
Sentou-se perto da janela e
começou a ler devagar.
Em determinada folha
encontrou uma frase que havia esquecido completamente:
"Tomara que um dia eu
aprenda a dizer menos e sentir mais."
Ficou olhando aquelas
palavras por um longo tempo.
A menina que as escrevera
imaginava que, depois dos cinquenta, teria todas as respostas. Não tinha ideia
de que a vida passaria justamente a trocar as perguntas.
Fechou a carta.
Lembrou-se de conversas
interrompidas, de desculpas que nunca chegaram, de abraços silenciosos que
disseram mais do que longos discursos.
As palavras envelheciam.
Mas não todas.
Algumas pareciam vinho
guardado. Esperavam apenas o momento certo para serem compreendidas.
Na manhã seguinte saiu
cedo. Precisava resolver pequenas coisas no centro da cidade. O trânsito seguia
lento, como acontece em qualquer lugar onde as pessoas acreditam que sempre
estão atrasadas.
Num cruzamento, um
motorista irritado buzinou sem necessidade.
Júlia apenas esperou.
Não respondeu.
Sorriu sozinha.
Houve um tempo em que teria
devolvido a impaciência na mesma medida.
Hoje já sabia que certas
discussões começam por falta de silêncio.
Mais tarde entrou numa
padaria. Enquanto esperava o café, ouviu duas senhoras conversando.
Uma delas dizia:
— Tem gente que fala
bonito.
A outra respondeu:
— Bonito mesmo é quando a
palavra chega sem machucar.
Júlia levou a xícara até
uma mesa perto da porta.
Nem percebeu que aquelas
duas desconhecidas haviam lhe dado o melhor texto daquele dia.
Escrever para ela era isso.
Não escolher as palavras
mais difíceis.
Nem as mais inteligentes.
Mas aquelas que
encontrassem quem as lesse do mesmo jeito que uma estrada encontra o rio:
fazendo curvas, respeitando o relevo, sem jamais precisar abrir mão do caminho.
Ao voltar para casa, abriu
o computador.
A tela em branco permaneceu
alguns minutos diante dela.
Sentiu, depois de muito
tempo, menos pressa.
Algumas histórias chegam
correndo.
Outras preferem caminhar
pela margem.
Há ainda aquelas que se
escondem atrás de uma única palavra, esperando que alguém tenha paciência
suficiente para encontrá-las.
Júlia escreveu apenas o
título.
Nas Curvas da Palavra.
Depois ficou olhando para
ele.
Nem sempre a primeira frase
é o começo de um conto.
Às vezes, é apenas a
primeira curva.
Silvia Marchiori Buss
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