Metamorfose


Essa metamorfose ambulante que me tornei desde que você partiu quando, ora sou inteira, dona dos meus passos e das minhas escolhas, ora sou a sua metade que ficou, aquela parte de mim que ainda se movimenta pelo mundo carregando a marca de uma vida que foi nossa.

Não é uma coisa simples. Há momentos em que me sinto inteira de verdade. Faço o que preciso fazer, converso, rio, encontro graça nas coisas, sigo a vida com a naturalidade de quem sabe que é preciso continuar. E há outros em que basta uma lembrança atravessar o pensamento para que tudo mude de lugar.

A ausência não chega sempre como tristeza. Às vezes chega disfarçada de rotina. Está na cadeira que ninguém ocupa, numa música que eu não esperava ouvir, numa frase que você certamente teria comentado. Está em pequenos detalhes que ninguém mais percebe, mas que para mim ainda têm o seu nome.

E eu sigo sendo essa mulher de muitas versões. A que aprendeu a resolver a própria vida e a que, de vez em quando, ainda procura você com os olhos. A que se sente forte e a que sente uma falta quase física de ter você ao lado. A que olha para frente e a que, sem perceber, volta para algum lugar onde nós dois ainda existimos.

Penso que a perda tenha esse poder estranho de nos deixar diante de nós mesmos. Sem a pessoa que durante tantos anos dividiu os dias, as decisões, os silêncios e até as pequenas coisas sem importância. E então a gente se olha de outro jeito. Não necessariamente melhor ou pior. Apenas diferente.

Eu não sei explicar muito bem essa diferença. Sei que há em mim uma espécie de movimento contínuo, como se alguma coisa estivesse sempre mudando de lugar. Um dia penso que estou bem. No outro, uma saudade antiga se instala no meio da tarde e me faz companhia.

E não tenho pressa de dar nome a tudo isso.

Há coisas que a gente simplesmente sente. Há lembranças que permanecem, sem que desejemos. Há dias que chegam inteiros e outros que chegam pela metade.

E eu vou atravessando uns e outros, ainda descobrindo quem sou quando a vida muda o seu desenho — e quando, dentro de mim, você ainda aparece em tantos lugares que eu nem sabia que existiam me sinto quase inteira novamente.

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

 

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