Me Leva Com Você
— Me leve com você.
Ela disse quase sem voz,
como se as palavras pudessem convencê-lo a ficar ou, quem sabe, abrir uma
fresta por onde pudesse passar junto.
Ele sorriu. Não era um
sorriso de despedida. Era pior. Era aquele sorriso de quem já sabia que não
havia argumento capaz de mudar o destino.
Ela queria ir.
Queria largar a casa, as
gavetas cheias de coisas que já não usava, as fotografias, os compromissos, os
nomes, as pequenas obrigações que foram se acumulando ao longo dos anos. Queria
atravessar a porta com ele e descobrir o que existia depois dela.
Mas precisava ficar.
Ainda havia gente que
precisava dela. Havia uma filha que ligaria amanhã. Havia netos que chegariam
sem avisar e ocupariam a casa com vozes. Havia livros pela metade, plantas
esperando água, uma história que ainda não tinha terminado de escrever.
E havia a vida.
Essa teimosa.
A vida que, durante tantos
anos, pareceu ter dois caminhos.
A gente vai.
Se não dá certo, volta.
Vai para longe, experimenta
outro lugar, outra profissão, outro amor, outra casa. Erra. Recomeça. Volta
para aquilo que conhece ou inventa um novo começo. Há sempre uma segunda
possibilidade escondida em algum lugar.
Ela pensou nisso enquanto
segurava a mão dele.
Talvez fosse isso que
tornava tudo tão difícil.
A vida sempre oferecera um
vai e volta.
Até que um dia não oferece
mais.
Ele iria para onde não
existia retorno.
E ela ficaria aqui, diante
de uma estrada que não sabia percorrer sozinha.
— Me leve com você —
repetiu.
Dessa vez ele não
respondeu.
Talvez porque soubesse que
não podia.
Talvez porque soubesse que,
mesmo querendo, ela ainda precisava ficar.
Há um momento na vida em
que percebemos que os dois “vês” — o vai e o volta — começam a desaparecer.
Primeiro, devagar.
Uma viagem que já não
fazemos.
Uma porta que já não
abrimos.
Um lugar ao qual sabemos
que não voltaremos.
Um rosto que procuramos na
multidão sabendo que ele não estará mais ali.
Até que resta apenas o V de
vai.
E ele é definitivo.
Mas talvez não seja tão
simples.
Se pensarmos com a
distância que só a velhice ensina, ainda existem dois “vês”.
O primeiro é aquele que
fizemos quando entramos no mundo.
Um dia fomos.
Saímos do escuro e quente
da barriga da mãe e chegamos aqui, sem saber para onde estávamos indo.
Depois vieram os passos, as
quedas, as partidas, os retornos, os encontros, as perdas. Uma vida inteira
aprendendo a ir e voltar.
Até chegar o segundo V.
O último.
Aquele que nos leva para o
infinito.
Ela olhou para ele e
entendeu, finalmente, que não podia acompanhá-lo.
Não ainda.
Havia coisas a terminar.
Havia pessoas a abraçar.
Havia manhãs que ainda não
tinham acontecido.
E talvez fosse essa a única
maneira de amá-lo naquele instante: deixá-lo ir.
Ficou olhando até onde os
olhos alcançavam.
Depois fechou a porta.
Não para prendê-lo do lado
de fora.
Mas para conseguir
continuar do lado de dentro.
Naquela noite, antes de
dormir, falou para o quarto vazio:
— Vá. Eu fico. Aquelas
palavras não pareceram uma desistência.
Pareceram um compromisso.
Com a vida.Com os filhos,
netos, negócios...uma continuação dele...
Até que um dia, quando
chegasse a sua vez de atravessar o segundo V, talvez ele estivesse esperando.
E então, quem sabe, ela
pudesse finalmente dizer:
— Agora pode me levar com
você.
Silvia Marchiori Buss
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