Leve Como Um Anjo
Quando um anjo abre as
asas, o peso deixa de ser uma medida. Nas alturas, até aquilo que na terra
parece impossível de carregar encontra um jeito de flutuar. As nuvens não
perguntam quanto pesa um corpo. Apenas o recebem.
Alguns amores comecem
assim.
Sem gravidade.
A gente entra neles como
quem sobe devagar para um lugar onde as coisas parecem mais fáceis. O outro
chega sem fazer barulho e, de repente, há uma mão que encontra a nossa, uma voz
que parece conhecer o caminho, uma presença que torna o mundo menos áspero.
Sissa e Paulo tiveram esse
começo.
Durante algum tempo,
viveram como se o chão estivesse muito distante.
Havia domingos compridos,
café tomado sem pressa, pequenas viagens, risadas no carro, planos escritos em
guardanapos. Havia também os silêncios, mas eram silêncios confortáveis, desses
que não exigem explicação.
Ela achava bonito quando
ele dormia.
Ele gostava de vê-la
escrevendo.
Penso que o amor seja feito
também dessas coisas que ninguém conta: a maneira como alguém segura uma
xícara, o lugar onde deixa os sapatos, o som de uma chave girando na fechadura.
O tempo passava e foram
ficando.
E, enquanto ficaram, foram
acrescentando peso àquilo que um dia parecera sem peso.
Vieram os filhos, as
contas, as preocupações, as perdas, os pais envelhecendo, as doenças, os
horários desencontrados. Vieram os “deixa que eu faço”, os “não precisa se
preocupar”, os “depois a gente conversa”.
Cada um começou a carregar
pequenas coisas pelo outro.
Por amor.
Depois, por hábito.
Mais tarde, talvez por
culpa.
E o que era leve foi
ganhando densidade.
Não de uma vez.
Um pouco por dia.
Como uma nuvem que, sem que
ninguém perceba, vai acumulando água.
Sissa começou a sentir que
carregava o silêncio de Paulo.
Paulo carregava as
expectativas de Sissa.
Ela esperava que ele
percebesse.
Ele esperava que ela
compreendesse.
E os dois foram ficando
cada vez mais habilidosos em adivinhar o que o outro queria, mas cada vez menos
dispostos a perguntar.
Foi assim que começaram a
se perder.
Não houve uma grande
tragédia.
Não houve traição, nem
escândalo, nem uma porta batida com violência.
Houve apenas o peso.
Aquele peso estranho que
não aparece na balança.
O peso de precisar.
O peso de decepcionar.
O peso de permanecer
tentando ser aquilo que o outro esperava.
Uma noite, Sissa estava
junto à janela quando Paulo perguntou:
— Você está feliz?
Ela demorou a responder.
Olhou para fora.
O céu estava baixo, coberto
de nuvens.
— Não sei — disse.
Ele não insistiu.
Talvez porque também não
soubesse.
Ficaram algum tempo em
silêncio.
Então Sissa falou:
— Acho que a gente se ama,
Paulo. Mas está pesado demais.
Ele abaixou os olhos.
E foi talvez a primeira
coisa que ambos conseguiram admitir sem se defender.
O amor ainda estava ali.
Só não estava sabendo voar.
Paulo levantou-se, foi até
a janela e ficou ao lado dela.
— Talvez a gente esteja
tentando carregar demais — disse.
Sissa olhou para ele.
Não havia acusação naquela
frase.
Havia cansaço.
E, pela primeira vez em
muito tempo, havia também uma possibilidade.
Eles não precisavam
terminar.
Precisavam mudar.
Foi uma conversa que não
resolveu a vida naquela noite. Nenhuma conversa resolve.
Nos dias seguintes,
começaram a experimentar uma outra maneira de estar juntos.
Sissa parou de esperar que
Paulo adivinhasse o que sentia.
Paulo parou de guardar
dentro de si aquilo que o incomodava.
Começaram a dizer “não” sem
transformar o não em ofensa.
Começaram a compreender que
amar não era estar disponível o tempo inteiro.
Que cada um podia ter seus
silêncios, seus amigos, seus pequenos desejos, seus momentos de solidão.
Descobriram, depois de
tantos anos, que havia uma diferença enorme entre dividir a vida e carregar a
vida do outro.
E foram devolvendo, pouco a
pouco, aquilo que não pertencia a nenhum dos dois.
As expectativas.
As culpas.
As cobranças silenciosas.
A necessidade de acertar
sempre.
A obrigação de fazer o
outro feliz.
Não foi fácil.
Às vezes recaíam nos velhos
hábitos.
Às vezes uma conversa
terminava mal.
Às vezes Sissa chorava no
quarto e Paulo caminhava pela casa sem saber como alcançá-la.
Mas agora havia uma
diferença.
Eles voltavam.
Voltavam para a conversa.
Voltavam para o abraço.
Voltavam para aquilo que
havia ficado escondido debaixo de tantos anos de responsabilidades.
Certa manhã, estavam
tomando café quando Paulo perguntou:
— Lembra de quando a gente
não tinha nada e achava que tinha tudo?
Sissa sorriu.
— Lembro.
— Acho que a gente não
perdeu aquilo.
Ela levantou os olhos.
— Não?
— Não. Só colocamos coisa
demais em cima.
Ela riu.
Um riso pequeno, mas
antigo.
O mesmo que ele conhecia
desde o começo.
E foi naquele instante que
Sissa percebeu que talvez o amor não tivesse deixado de ser leve.
Eles é que tinham esquecido
como se voava.
Depois disso, começaram a
viajar novamente.
Não grandes viagens.
Às vezes apenas uma estrada
qualquer, uma cidade próxima, um café tomado numa praça desconhecida.
Voltaram a escrever planos
em guardanapos.
Voltaram a rir no carro.
Voltaram a ficar em
silêncio sem que o silêncio significasse alguma coisa ruim.
E havia uma novidade entre
eles.
Não eram mais dois jovens
acreditando que o amor bastava.
Eram duas pessoas que já
sabiam que o amor, sozinho, não basta.
É preciso espaço.
É preciso escolha.
É preciso respirar.
É preciso que cada um tenha
asas próprias.
Numa tarde de céu muito
azul, Sissa estava na varanda quando viu uma nuvem atravessar lentamente o
horizonte.
Paulo apareceu atrás dela.
Ela encostou a cabeça em
seu ombro.
— Olha.
Ele olhou.
— O quê?
— A nuvem.
— E daí?
Sissa sorriu.
— Nada. Só estou pensando
que ela não carrega o céu.
Paulo ficou quieto por
alguns segundos.
Depois respondeu:
— Ainda bem.
Ela segurou a mão dele.
E ficaram ali.
Sem promessas grandiosas.
Sem a necessidade de
garantir o futuro.
Apenas juntos.
Porque talvez seja esse o
segredo dos amores que duram: não permanecerem iguais, mas aprenderem outras
formas de existir.
Sissa e Paulo não se
separaram.
Separaram apenas aquilo
que, durante anos, haviam confundido com amor.
Deixaram cair algumas
culpas.
Algumas cobranças.
Alguns medos.
E guardaram o essencial.
O cuidado.
A ternura.
A história.
A vontade de continuar.
O amor.
Esse, sim, ficou.
Mais leve.
Mais livre.
Talvez um pouco parecido
com o amor dos primeiros anos.
Não porque tivessem voltado
a ser os mesmos.
Mas porque finalmente
compreenderam que ninguém precisa sustentar o voo do outro.
Cada um abre suas próprias
asas.
E, quando os dois voam lado
a lado, o amor deixa de ser peso.
Vira companhia.
Vira escolha.
Vira casa.
E, naquela tarde, enquanto
o vento passava devagar pelos cabelos de Sissa, Paulo apertou sua mão.
Ela não precisou dizer
nada.
Nem ele.
Algumas coisas, quando
finalmente encontram seu lugar, deixam de precisar de palavras.
Lá em cima, uma nuvem
atravessava o céu sem pressa.
Leve.
Inteira.
Como se soubesse que há
amores que não precisam acabar para voltar a voar.
Basta que aprendam, outra
vez, a deixar espaço para o vento.
Silvia Marchiori Buss
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