Isso Também Passará
Helena tinha vinte e poucos
anos quando ganhou um pequeno medalhão de prata. Foi presente de uma tia muito
querida, dessas mulheres que falam pouco, mas parecem enxergar um pouco mais
longe que os outros.
De um lado, a prata era
lisa. Do outro, havia apenas três palavras gravadas:
Isso também passará.
— Não é um enfeite — disse
a tia, ao prendê-lo em um cordão. — É para os dias em que você esquecer que o
tempo nunca para.
Helena sorriu, sem dar
muita importância. Achou a frase bonita, embora um tanto enigmática. Colocou o
cordão no pescoço e saiu para viver, como fazem os jovens quando acreditam que
o futuro será sempre generoso.
Os anos passaram.
O medalhão estava ali no
dia do casamento. Estava ali quando nasceu a primeira filha, entre o medo e o
espanto de descobrir que um coração podia bater fora do próprio corpo.
Aparecia, discreto, em algumas fotografias de férias, escondido sob um lenço ou
refletindo um raio de sol.
Às vezes Helena o segurava
entre os dedos. Lia a frase e seguia o dia. Havia roupas para estender, contas
para pagar, crianças chamando da janela.
Muito tempo depois, numa
manhã comum, o telefone tocou cedo demais.
Foi assim que começou um
dos períodos mais difíceis de sua vida.
Vieram hospitais,
corredores longos, cadeiras desconfortáveis, relógios que pareciam não andar.
Depois veio o silêncio da casa. Um silêncio tão grande que até o barulho da
geladeira parecia um intruso.
Numa dessas noites, ao
trocar de roupa, o medalhão escapou por baixo da blusa.
Ela o segurou.
"Isso também
passará."
Pela primeira vez, aquelas
palavras lhe pareceram quase uma ofensa.
Guardou o cordão na gaveta.
Meses depois, procurando
uma fotografia antiga, encontrou-o novamente.
Sem pensar, colocou-o outra
vez no pescoço.
A dor não havia ido embora.
Apenas deixara de ocupar todos os cômodos da casa. Agora aparecia sem aviso,
sentava-se ao lado dela por algum tempo e depois ia embora.
Enquanto isso, a vida
insistia.
Uma vizinha apareceu com um
bolo ainda quente.
Uma neta começou a
visitá-la nas quartas-feiras.
Um ipê floresceu na calçada
como fazia todos os anos, indiferente às perdas humanas.
E Helena voltou a rir.
Primeiro de uma lembrança. Depois de uma história contada pela neta. Até
perceber, certa tarde, que passara horas sem pensar na ausência.
Levou a mão ao peito.
O medalhão continuava ali.
Vieram outros anos. Outras
alegrias. Outras despedidas. Nenhuma vida escapa disso.
Já idosa, a neta perguntou
por que ela nunca tirava aquele colar.
Helena demorou a responder.
Passou o polegar sobre a
prata gasta pelo tempo.
— Porque ele nunca me
prometeu que a tristeza acabaria. Só me lembrou que ela não seria a única
moradora da casa.
Então retirou o medalhão do
pescoço e o colocou nas mãos da menina.
A gravação estava quase
apagada.
Mas ainda era possível ler,
com alguma atenção:
Isso também passará.
Silvia Marchiori Buss
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