Ela Decidiu Esquecer
Ela dizia, com a autoridade de quem já havia vivido o bastante para não precisar pedir licença às próprias escolhas, que certas doenças dos velhos eram criadas.
Não todas. Não era ingênua.
Sabia que havia doenças que chegavam com a idade, que os joelhos reclamavam,
que a vista diminuía, que o corpo começava a cobrar antigas imprudências.
Mas aquela outra doença, a
que fazia as pessoas esquecerem nomes, perderem o fio das conversas, repetirem
histórias e, pouco a pouco, deixarem escapar pedaços inteiros da própria vida,
essa ela dizia que tinha sido inventada.
— Inventada por quem não
entende o que é ter vivido muito.
Dizia isso sem revolta. Era
quase uma constatação.
E ninguém discutia.
Ela tinha o costume de
falar assim, com uma segurança que não vinha de livros nem de médicos. Vinha
dos anos. De tudo o que havia visto desaparecer.
Havia vivido uma vida
cheia.
Casa cheia, durante muito
tempo. Filhos entrando e saindo, netos espalhando brinquedos, amigos chegando
sem avisar, panelas no fogão, toalhas molhadas esquecidas no banheiro, copos
pela sala depois das festas.
Havia viagens, fotografias,
aniversários, doenças passageiras, pequenas brigas, reconciliações, domingos
demorados.
E havia ele.
Sobretudo ele.
Não gostava de falar muito
sobre isso.
Não porque não tivesse o
que dizer, mas porque havia coisas que, depois de certas perdas, pareciam
grandes demais para caber numa conversa.
Tinham sido tantos anos.
Tanta presença.
Era justamente essa
presença que agora a incomodava.
Não a ausência.
A presença que permanecera.
Estava no quarto, na
cadeira vazia, em certas músicas, no jeito como a luz entrava pela janela no
fim da tarde. Estava até nas coisas mais banais: uma xícara, uma palavra, um
cheiro vindo da cozinha.
Foi então que ela tomou uma
decisão.
— Eu vou esquecer.
As filhas pensaram que
fosse uma maneira de falar.
Ela não estava brincando.
Começou devagar.
Tirou fotografias das
molduras.
Guardou cartas.
Mudou alguns objetos de
lugar.
Uma camisa que permanecera
durante meses pendurada atrás da porta foi dobrada e colocada no fundo do
armário.
Não jogou nada fora.
Não teria coragem.
Apenas afastou.
Como quem sabe que
determinadas coisas, quando ficam à vista, continuam chamando.
— Foi tanta presença —
dizia. — Tanta lembrança boa. Se eu ficar trazendo tudo de volta, vou sofrer o
resto da vida.
Ninguém soube o que
responder.
Porque havia verdade
naquilo.
Não eram as lembranças
ruins que a perseguiam.
Eram as boas.
As melhores eram as mais
perigosas.
Uma música podia devolvê-la
a uma noite inteira.
Um perfume podia trazer uma
pessoa.
Uma fotografia podia fazer
com que ela esquecesse, durante alguns segundos, que o tempo havia passado.
Por isso, decidiu controlar
o que podia.
Não ouvia determinadas
músicas.
Evitava algumas ruas.
Não abria a caixa de
cartas.
Quando alguém perguntava:
— Você lembra daquele dia?
Ela respondia:
— Não.
Às vezes lembrava até dos
detalhes.
Mas dizia não.
Queria se acostumar a não
saber.
No começo, funcionou.
Depois, percebeu que
esquecer exigia uma espécie de disciplina.
Era preciso não perguntar,
não procurar, não tocar em certas coisas.
Era preciso interromper uma
lembrança antes que ela criasse corpo.
E, sobretudo, era preciso
não deixar que os outros ajudassem.
As filhas contavam
histórias da família e ela mudava de assunto.
Os netos mostravam
fotografias antigas e ela devolvia o telefone.
— Guardem isso vocês. Já
não preciso dessas coisas.
Dizia com firmeza.
Mas, algumas noites, quando
estava sozinha, procurava na memória aquilo que passara o dia inteiro tentando
expulsar.
Não procurava
deliberadamente.
Acontecia.
Uma frase.
Um gesto.
A maneira como ele
levantava os olhos quando ela falava demais.
Uma determinada risada.
O barulho da chave na
porta.
E então ela se irritava
consigo mesma.
— Eu mandei esquecer.
Falava em voz alta, como se
a memória fosse alguém capaz de obedecer.
Certa tarde, estava sentada
junto à janela quando ouviu uma risada no apartamento vizinho.
Não era a mesma.
Ela sabia.
Mas havia alguma coisa
naquele som.
A mão que segurava a xícara
ficou parada.
Por alguns segundos, não
fez esforço algum para afastar a lembrança.
Deixou que viesse.
Veio uma tarde antiga.
A mesa posta sem nenhuma
ocasião especial.
Duas pessoas conversando
sobre coisas pequenas.
Uma discussão sem
importância.
O vinho servido além da
conta.
Depois, o silêncio
confortável de quem não precisava preenchê-lo.
Ela permaneceu olhando para
a janela.
Não chorou.
Também não sorriu.
A lembrança ficou ali,
inteira, sem pedir nada.
Mais tarde, levantou-se e
foi até o armário.
Abriu a porta.
Procurou entre as roupas.
Encontrou a camisa.
Ficou alguns instantes
segurando o tecido.
Depois tornou a dobrá-lo.
Dessa vez, porém, não o
colocou no fundo.
Deixou-o numa prateleira
onde pudesse ser encontrado.
No dia seguinte, voltou a
colocar uma fotografia na sala.
Escolheu uma em que os dois
não estavam olhando para a câmera.
Era uma fotografia
imperfeita.
Ele falava alguma coisa.
Ela parecia distraída.
Nenhum dos dois sabia que
estava sendo fotografado.
Talvez fosse por isso que
gostasse dela.
Passou o dedo pelo vidro.
Ficou algum tempo ali.
Depois afastou a mão.
A fotografia permaneceu
sobre a mesa.
Ela não tentou lembrar de
nada.
Também não tentou esquecer.
Silvia Marchiori Buss
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