Depois da Ceia


Depois da ceia, quando todos já tinham ido embora e a casa finalmente ficou em silêncio, Clara percebeu uma coisa estranha: a mesa continuava posta.

Não havia pratos sujos, nem copos pela metade, nem farelos de pão sobre a toalha. Tudo permanecia exatamente como estava antes da primeira taça ser servida. Até as velas continuavam acesas, com suas pequenas chamas imóveis, como se o tempo tivesse esquecido de passar naquela sala.

Clara se aproximou da janela.

Do lado de fora, a rua havia desaparecido.

No lugar das casas, dos postes e dos carros estacionados, havia um campo imenso, coberto por uma espécie de grama azulada que brilhava sob uma lua enorme. Árvores muito altas se moviam sem vento. E, ao longe, pequenas luzes passeavam pelo céu como se alguém tivesse soltado milhares de lanternas.

Ela abriu a porta.

Não sentiu frio.

Nem medo.

Apenas uma vontade inexplicável de continuar andando.

O campo terminava diante de uma cidade que não tinha ruas. As pessoas caminhavam por jardins, atravessavam fontes, conversavam com desconhecidos e pareciam saber exatamente para onde ir. Ninguém carregava relógio. Ninguém tinha pressa.

Na entrada, uma menina entregou a Clara uma pequena chave dourada.

— Para que serve?

A menina sorriu.

— Para abrir aquilo que você ainda não sabe que deseja.

Clara guardou a chave no bolso.

Andou durante horas, embora ali fosse impossível saber se eram horas. Encontrou uma praça onde as árvores contavam histórias quando alguém encostava a mão em seus troncos. Encontrou uma livraria em que os livros ainda não escritos ocupavam as prateleiras. Encontrou uma padaria onde o cheiro do pão recém-assado fazia as pessoas se lembrarem de coisas que nunca tinham vivido.

Mas foi numa pequena casa amarela, no fim de uma rua de pedras claras, que Clara parou.

Na porta havia apenas uma placa:

ENTRE. AQUI VOCÊ NÃO PRECISA SER NADA.

Ela entrou.

Havia uma mulher sentada diante de uma janela.

Parecia ter a idade que Clara teria se pudesse escolher.

— Você chegou cedo — disse a mulher.

— Cedo para quê?

— Para descobrir que não veio até aqui para encontrar alguma coisa.

Clara ficou em silêncio.

A mulher continuou:

— Veio para descobrir que ainda existem coisas que podem começar.

Então abriu uma gaveta e tirou de dentro um pequeno envelope.

Clara reconheceu sua própria letra.

Abriu.

Dentro havia uma única frase:

“E se a melhor parte da sua vida ainda não tiver acontecido?”

Clara leu duas vezes.

Depois sorriu.

Foi quando percebeu que aquela cidade mágica não era um lugar onde nada de ruim acontecia.

Era mais bonito do que isso.

Era um lugar onde ninguém precisava viver olhando para trás.

Ali, cada manhã começava com uma pergunta, não com uma resposta.

E talvez fosse justamente essa a magia.

Quando voltou para casa, o céu ainda estava escuro. A mesa continuava posta. As velas finalmente haviam se apagado.

Clara foi até a cozinha, abriu a geladeira e encontrou uma fatia de bolo que havia sobrado da ceia.

Comeu em pé, sozinha e riu.

Não sabia por quê. Clara sentiu uma coisa simples e quase esquecida:

curiosidade pelo dia seguinte.

E guardou a pequena chave dourada na cabeceira.

Não para abrir uma porta. Mas para não esquecer que algumas portas só aparecem quando a gente decide continuar.

Silvia Marchiori Buss

 

 

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