Como é o Cheiro Daí..
Ela nunca acreditou que a
memória morasse apenas nas fotografias. As fotografias guardavam rostos,
roupas, lugares. Mas havia lembranças que escolhiam outros endereços.
Os cheiros, por exemplo.
Bastava passar por alguém
usando um perfume parecido para que uma
tarde inteira voltasse no tempo. O banco de uma praça. Um casaco esquecido
sobre a cadeira. Um abraço dado às pressas porque havia um trem para pegar, um
voo, uma vida chamando.
Foi numa dessas tardes
comuns que a música tocou baixinho no rádio.
"Como é o cheiro daí?
O seu eu não esqueci."
Ela sorriu antes mesmo de
perceber que os olhos estavam úmidos.
Nunca tinha pensado que a
saudade pudesse ter cheiro. Sempre imaginara que ela morasse nas palavras, nas
fotografias amareladas, nas cartas guardadas dentro de livros. Mas não. A
saudade era mais esperta. Escondia-se onde ninguém conseguia prender.
No travesseiro
recém-trocado.
Na camisa esquecida atrás
da porta.
No café passado bem cedo.
Na terra molhada depois da
chuva.
Ela fechou os olhos.
Ainda lembrava o cheiro
dele chegando em casa no fim da tarde. Não era apenas perfume. Era vento da
rua, banco do carro aquecido pelo sol, papel de jornal, café tomado às pressas
e alguma coisa que nunca conseguiu explicar. Talvez cada pessoa invente um cheiro
que pertence somente a ela.
Pensou, então, que também
devia existir um cheiro seu.
Talvez ele soubesse
descrevê-lo melhor do que ela mesma.
Quem ama presta atenção em
detalhes que o espelho desconhece.
Ela caminhou até a janela.
O vento entrou devagar, trazendo o perfume das árvores depois de uma chuva
distante. Ficou imaginando se, em algum lugar impossível de medir, ele também
reconheceria aquele vento.
Não era uma pergunta para
ser respondida.
Algumas perguntas existem
apenas para fazer companhia.
Continuou olhando a rua
enquanto a música terminava.
Sorriu de novo.
Percebeu que nunca sentimos
falta apenas de uma pessoa. Sentimos falta do mundo inteiro que existia quando
ela estava por perto. Dos cheiros, dos sons, da luz entrando pela janela, do
jeito como a casa respirava.
Lembranças nunca
envelheçam.
Elas não moram na cabeça.
Moram no ar.
E, de vez em quando, basta
uma brisa distraída para atravessar muitos anos e nos devolver, por alguns
segundos, alguém que parecia tão distante quanto o horizonte, mas que continua
vivendo, silenciosamente, no único lugar onde o tempo nunca consegue apagar um
cheiro.
Silvia Marchiori Buss
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