As "Meninas" do Trem
O trem saiu devagar, quase
pedindo licença para deixar a estação para trás.
Era uma manhã comum. Gente
apressada, sacolas no colo, casacos mal fechados, o barulho metálico das portas
e aquele cheiro de café que vinha de algum lugar da plataforma. Nada anunciava
que, naquele vagão, quatro mulheres estavam prestes a reencontrar uma parte de
suas próprias vidas.
Sentaram-se próximas, como
se ainda tivessem vinte e poucos anos.
Não tinham.
Havia cabelos brancos
escondidos sob tinturas cuidadosas, joelhos que reclamavam nas mudanças de
tempo e uma coleção de histórias que nenhuma delas contava inteira.
— Faz quanto tempo? —
perguntou Lúcia.
Ninguém respondeu de
imediato.
Era uma pergunta grande
demais para caber em uma resposta.
Tinham estudado juntas.
Depois vieram os casamentos, os filhos, os empregos, as mudanças de cidade, as
mães envelhecendo, os maridos adoecendo, as contas, as separações, os netos. A
vida foi acontecendo às vezes calma, às vezes atropelada... e, quando
perceberam, já não eram mais as meninas que esperavam o trem na mesma
plataforma, discutindo provas, namorados e o vestido que uma delas usaria no
baile.
— Quarenta e três anos —
disse Helena, olhando pela janela.
Todas riram.
— Você contou?
— Claro que contei.
Helena sempre contava.
Contava aniversários, datas, anos de casamento, aniversários de morte. Talvez
fosse seu jeito de não deixar as coisas desaparecerem completamente.
O trem ganhou velocidade.
Do lado de fora, casas,
árvores e pequenos quintais passavam depressa. Dentro do vagão, porém, o tempo
parecia ter parado.
Conversaram sobre coisas
pequenas.
O preço das coisas.
Os filhos.
Os netos.
Uma cirurgia de catarata.
A dor no joelho de Marta.
O marido de Lúcia, que já
não gostava de viajar.
Riram quando Helena contou
que ainda guardava uma blusa da época da faculdade.
— Você nunca joga nada fora
— disse Marta.
— Algumas coisas merecem
ficar.
Ninguém perguntou quais.
Depois veio um silêncio.
Não aquele silêncio
constrangedor de quem não tem assunto. Era um silêncio antigo, confortável,
como se as quatro soubessem que não precisavam preencher todos os espaços.
Foi Marta quem olhou para
as outras e disse:
— Vocês também sentem que a
gente passou a vida inteira esperando alguma coisa?
As três olharam para ela.
— O quê? — perguntou Lúcia.
Marta deu de ombros.
— Não sei. A vida começar,
talvez.
Helena sorriu de lado.
— E agora?
Marta olhou para as mãos.
— Agora eu acho que começou
faz tempo. A gente é que estava ocupada demais para perceber.
Ninguém riu.
Lúcia virou o rosto para a
janela.
Por alguns segundos, viu no
reflexo do vidro a menina que tinha sido. O cabelo comprido, a mochila no
ombro, os olhos cheios de planos. A menina que acreditava que teria tempo para
tudo.
Talvez fosse essa a maior
mentira da juventude: acreditar que o tempo é uma coisa que se possui.
O trem diminuiu a
velocidade.
Uma estação se aproximava.
— É aqui que descemos? —
perguntou Helena.
— Ainda não — respondeu
Marta.
E as quatro sorriram.
Ainda não.
Duas palavras simples.
Mas, naquele momento,
pareceram enormes.
Ainda não era hora de
descer.
Ainda havia conversa.
Ainda havia café.
Ainda havia viagens que
poderiam fazer, mesmo que mais curtas.
Ainda havia vestidos para
comprar sem ocasião especial, restaurantes para conhecer, livros para trocar e
tardes inteiras sem obrigação.
Ainda havia algumas coisas
que elas queriam dizer umas às outras.
O trem continuou.
E, por alguns quilômetros,
aquelas quatro mulheres não foram mães, esposas, avós, viúvas, profissionais ou
cuidadoras de ninguém.
Foram apenas as meninas do
trem.
As mesmas que um dia
acreditaram que a vida seria longa.
E que, naquela manhã,
descobriram uma coisa diferente:
talvez a vida não
precisasse ser longa.
Talvez precisasse apenas
continuar sendo delas enquanto ainda houvesse caminho pela frente.
Silvia Marchiori Buss
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