A Vida Passou Por Aqui
Rosa encontrou a caixa quando procurava outra coisa.
Era uma daquelas caixas de
papelão reforçado que sobrevivem a mudanças, reformas, nascimentos, despedidas.
Na tampa, escrito com uma caneta já desbotada, apenas duas palavras:
Rosa e Edmundo.
Sorriu sem perceber.
Sentou-se no chão da sala e
abriu.
Em cima de tudo havia um
mapa de estrada dobrado tantas vezes que já não obedecia às mãos. Depois vieram
recibos de hotéis simples, ingressos de cinema, uma concha trazida de uma praia
qualquer, um guardanapo com o nome de um restaurante onde haviam prometido
voltar. Nunca voltaram.
Também apareceu uma
fotografia em que os dois riam de alguma coisa que ninguém mais seria capaz de
explicar. Não era uma pose bonita. Ela estava com os cabelos bagunçados pelo
vento. Ele tinha os olhos quase fechados de tanto rir.
Era justamente por isso que
era bonita.
Rosa foi colocando cada
lembrança sobre o tapete.
Ali estava a vida.
Não os grandes
acontecimentos que costumam aparecer nos álbuns de família, mas aquilo que
sustenta uma existência inteira: a nota fiscal de um pneu trocado durante uma
viagem, a chave de um quarto de pousada, um bilhete escrito às pressas dizendo:
"Volto logo. Não esquece de almoçar."
Ela lembrava perfeitamente
daquele bilhete.
Na época nem imaginou que
um dia seria guardado.
Há coisas que só ganham
importância muitos anos depois.
Encontrou também uma
pequena agenda. Ao abri-la, viu páginas preenchidas com listas de supermercado.
Arroz.
Café.
Sabão em pó.
Ração.
Ela riu sozinha.
A felicidade também mora na
letra apressada de quem pergunta se ainda tem açúcar em casa.
Enquanto espalhava aqueles
pequenos vestígios pela sala, Silvia teve a impressão de que as pessoas
imaginam a vida como uma sucessão de grandes momentos.
Casamento.
Filhos.
Viagens.
Conquistas.
Mas a vida verdadeira
talvez aconteça nos intervalos.
Nas conversas durante o
café.
Na escolha de um filme.
Na discussão sobre qual
caminho pegar.
No silêncio confortável de
quem já não precisa preencher todos os espaços com palavras.
Edmundo tinha esse
silêncio.
Não era ausência.
Era companhia.
Quantas vezes viajaram
horas sem conversar, apenas olhando a estrada pela janela? E, ainda assim,
parecia que diziam tudo.
Rosa passou a mão sobre uma
camisa dele, dobrada havia tanto tempo que conservava o formato das dobras.
O tecido já não tinha
cheiro.
A memória, sim.
Ela fechou os olhos.
Não tentou reviver nada.
Aprendeu que lembranças não
obedecem às nossas ordens. Elas chegam quando querem. Às vezes por causa de uma
música. Às vezes pelo perfume de um café recém-passado. Às vezes por uma caixa
esquecida num armário.
Do lado de fora, alguém
passou varrendo a calçada.
Uma criança chamou a mãe.
Um cachorro latiu duas
vezes.
A cidade seguia vivendo sem
saber que, naquela sala, duas vidas inteiras estavam sendo visitadas outra vez.
Rosa recolocou tudo dentro
da caixa.
Não exatamente na mesma
ordem.
Algumas lembranças mudam de
lugar quando voltam às nossas mãos.
Antes de fechar a tampa,
encontrou um pequeno papel preso no fundo.
Não lembrava que existia.
Era apenas uma frase
escrita pela letra de Edmundo:
"A vida passou por
aqui."
Nada mais.
Sem data.
Sem explicação.
Rosa permaneceu alguns
minutos olhando aquelas quatro palavras.
Depois fechou a caixa
devagar.
Empurrou-a novamente para
dentro do armário.
Não porque desejasse
esconder o passado.
Mas porque compreendeu que
ele já não morava ali.
Morava nela.
E talvez fosse por isso
que, ao atravessar a sala em direção à janela, teve a estranha sensação de que
algumas pessoas nunca deixam realmente uma casa.
Elas continuam vivendo nos
gestos que aprenderam conosco, nas palavras que ainda usamos sem perceber, nas
escolhas que fazemos quase do mesmo jeito.
A caixa voltou para a
prateleira.
A sala ficou silenciosa
outra vez.
Sobre os móveis não havia
nenhuma fotografia aberta, nenhum objeto espalhado, nenhum sinal de visita.
Ainda assim, quem entrasse
naquele instante talvez sentisse, sem conseguir explicar por que, que a vida
tinha acabado de passar por ali.
Silvia Marchiori Buss
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