A Minha Metade
Eu sempre dizia que era
inteira.
Dizia com a convicção de
quem havia aprendido cedo que ninguém deveria chegar à vida do outro para
completá-lo. Eu era uma maçã inteira, uma laranja inteira. E, se um dia alguém
quisesse caminhar ao meu lado, que viesse inteiro também. Nunca seria metade de
ninguém.
Eu gostava dessa ideia.
Talvez porque houvesse nela
uma espécie de liberdade. Uma mulher inteira não precisava de ninguém para
existir. Podia escolher. Podia ficar. Podia partir. Podia amar sem se perder.
E assim atravessei a vida.
Até que o tempo, que não
costuma dar explicações, me ensinou uma coisa que eu não sabia.
Hoje me vejo dividida.
Não porque tenha deixado de
ser inteira. Mas porque descobri que há pessoas que, quando partem, levam
consigo uma parte de nós que não estava em nós antes delas.
E então entendi a metáfora
que eu rejeitava.
“A metade da laranja. A
metade da maçã.”
Aquela coisa que eu achava
pequena demais para uma mulher que sempre se orgulhou de ser inteira.
Hoje sei que, quando se ama
de verdade, quando se é profundamente apaixonada, a metade não é falta. É
encontro.
Não é incompletude.
É pertencimento.
Fomos duas pessoas inteiras
que, durante quase cinquenta anos, aprenderam a dividir a vida de tal maneira
que, sem perceber, fomos deixando pedaços nossos um no outro... como se, por
osmose, fôssemos nos fundindo. O teu riso ficou em mim. Teus gestos. Tuas
palavras. Teu jeito de olhar. As pequenas coisas que ninguém mais saberia
reconhecer.
E agora, quando procuro por
ti, encontro vestígios.
Em uma música.
Em uma fotografia.
Num objeto esquecido.
No silêncio de uma manhã.
E me pergunto:
Cadê você, minha metade?
Em que lugar deste universo
te esconderam de mim?
Quem foi esse ser que
chegou tão silenciosamente e levou você para tão longe?
A morte.
Tenho pensado nela.
E me ocorreu uma pergunta
estranha: a morte tem gênero?
Não sei.
Mas, se tivesse, acho que
seria mulher.
Talvez porque a mulher
conheça profundamente esse mistério de receber alguém dentro de si, guardar,
alimentar, proteger e, um dia, abrir os braços para deixar partir.
A vida costuma nascer do
corpo de uma mulher.
E talvez a morte tenha
escolhido justamente uma mulher para recolher seus filhos.
Há nisso uma ironia que me
desconcerta.
Jesus é homem.
E, ainda assim, talvez
tenha confiado a uma mulher esse trabalho que ninguém quer fazer: recolher os
que terminam sua passagem por aqui.
Não sei se acredito nisso.
Não sei sequer se acredito
que a morte seja alguém.
Mas às vezes é mais fácil
conversar com uma figura do que com o vazio.
Por isso, se a morte for
mesmo uma mulher, eu gostaria de perguntar a ela algumas coisas.
Por que você?
Por que agora?
Por que não me avisou?
Por que não deixou ao menos
uma última palavra?
E, sobretudo, onde você o
colocou?
Porque eu ainda preciso
dizer algumas coisas.
Preciso contar que a casa
ficou diferente.
Que há lugares onde ainda
espero encontrá-lo.
Que às vezes começo uma
frase dentro de mim e, por um segundo, esqueço que não haverá resposta.
Preciso dizer que descobri,
tarde demais, que aquela mulher que dizia ser inteira também era metade.
E que não há vergonha
nenhuma nisso. Porque amar alguém não é deixar de ser inteiro.
É permitir que outra pessoa
tenha morada dentro de nós.
Talvez seja esse o grande
paradoxo do amor: continuamos sendo nós mesmos, mas nunca mais somos somente
nós.
E quando a morte vem, ela
não leva tudo.
Isso é o que estou
aprendendo.
Ela leva o corpo.
Leva a voz.
Leva a presença.
Mas não consegue levar
aquilo que o amor já misturou em nós.
Por isso ainda encontro
você.
Não no lugar onde a morte o
colocou.
Mas nos lugares onde a vida
o deixou. Talvez por isso que, apesar de me sentir dividida, eu não esteja
quebrada.
Sou uma mulher inteira
carregando uma ausência.
Uma mulher inteira com uma
metade que já não pode caminhar ao seu lado. Penso que amar seja justamente
isso:
descobrir que algumas
pessoas partem da nossa frente, mas nunca conseguem sair de dentro de nós.
Então, onde quer que você
esteja, minha metade, fique em paz.
Eu continuo aqui.
Inteira, como sempre quis
ser.
Mas agora sabendo que uma
parte de mim tem o teu nome.
Silvia Marchiori Buss
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