A Janela Aberta


Dizem que a vida gosta de surpreender. Eu, durante muito tempo, achei que isso fosse apenas uma frase bonita para confortar quem perdera o rumo. Depois descobri que era exatamente o contrário: a vida não avisa porque não precisa. Ela simplesmente acontece.

Todas as manhãs, Helena abria a janela antes mesmo do café. Não esperava ninguém. Não havia cartas, visitas nem telefonemas. Ainda assim, olhava a rua como quem aguarda uma notícia capaz de mudar tudo.

Os vizinhos imaginavam que ela vivia presa ao passado. Não sabiam que ela apenas aprendera a respeitar o futuro.

Depois da morte do marido, quase cinquenta anos de casamento haviam se transformado em fotografias, receitas escritas à mão e uma cadeira vazia diante da mesa. A casa continuava inteira, mas o silêncio ocupava mais espaço do que os móveis.

Ainda assim, Helena recusava-se a fechar a porta para a vida.

Plantava flores novas a cada primavera. Lia livros de autores desconhecidos. Fazia caminhos diferentes para voltar da feira. Nunca dizia "agora é tarde". Preferia pensar: "quem sabe?".

Não esperava milagres. Esperava possibilidades.

Foi numa terça-feira comum que o inesperado chegou. Não trouxe fanfarra nem fogos de artifício. Veio na forma de uma menina sentada na praça, chorando porque havia perdido um caderno.

Helena ajudou na procura.

Encontraram o caderno preso entre os galhos de uma roseira. A menina sorriu como se tivesse recuperado um tesouro.

Na última página havia um conto inacabado.

— A senhora escreve? — perguntou a garota, ao perceber que Helena observava aquelas folhas com carinho.

Ela sorriu.

— Escrevo para não esquecer. E, às vezes, para lembrar do que ainda nem vivi.

A menina pediu que ela terminasse a história.

Na semana seguinte vieram outras crianças. Depois apareceram mães, pais e avós. Aos poucos, a praça ganhou rodas de leitura aos sábados. Histórias passaram de mão em mão, e Helena descobriu que também podiam aproximar pessoas que jamais haviam se encontrado.

Sem perceber, a casa silenciosa ficou pequena para tanta vida.

Quando voltou para casa naquele sábado, a cadeira vazia continuava diante da mesa.

Mas o silêncio já não era o mesmo.

Helena abriu um caderno novo, escreveu a data no alto da página e começou outro conto.

Lá fora, alguém ria na praça.

Ela deixou a janela aberta.

Silvia Marchiori Buss

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