A Gente Se Encontra Pra Outra "Folia"


Hoje eu quis escrever para você.

Não sei para onde vão as cartas que a gente escreve para quem já morreu. Talvez não cheguem a lugar nenhum. Talvez fiquem aqui mesmo, fazendo companhia para quem escreve. Não importa. Hoje eu precisava falar com você.

A vida continuou.

Você sabe disso, porque, de algum jeito, eu ainda conto as coisas para você. Às vezes até em pensamento, como se você estivesse aqui, sentado na sua cadeira, me ouvindo enquanto eu falo das coisas mais simples.

E quando penso na nossa vida, me vem uma palavra: folia.

Foi uma folia.

Uma longa folia, dessas que começam sem a gente saber onde vão dar.

Nós dois éramos jovens quando tudo começou. Tínhamos planos, alguns sonhos e muitas certezas que depois descobrimos que não valiam grande coisa. A vida foi nos ensinando no caminho.

Vieram os filhos.

E com eles vieram as noites maldormidas, as preocupações, as alegrias que não cabiam no peito, as contas, as doenças, as festas, as férias, as pequenas brigas e as reconciliações.

A casa nunca mais foi silenciosa.

E acho que nós gostávamos daquele barulho.

Você tinha seu jeito. Eu tinha o meu. Nem sempre concordávamos. Às vezes brigávamos por coisas que hoje nem consigo lembrar direito. Outras vezes ficávamos quietos, cada um no seu canto, esperando a poeira baixar.

Mas havia uma coisa entre nós que permanecia.

Uma cumplicidade.

Um olhar seu dizia o que você não falava. Um olhar meu, você já sabia interpretar.

Depois vieram os netos.

E foi outra festa.

Você mudou com eles. Eu também. A gente parecia esquecer a idade quando eles chegavam. A casa se enchia de brinquedos, vozes, risadas e aquela bagunça que, depois que passa, a gente sente falta.

Eu gostava de olhar você com eles.

Às vezes você estava sentado, com um neto no colo, rindo de alguma bobagem, e eu pensava: olha nós dois... depois de tudo, ainda aqui.

Tanta coisa tinha acontecido entre aquele começo e aquele momento.

Os filhos cresceram. A casa mudou. Vieram as preocupações, as perdas, as alegrias, os aniversários, os almoços de domingo. Vieram os cabelos brancos e aquela intimidade que só o tempo constrói.

A gente já sabia quando o outro estava triste sem precisar perguntar. Sabia o jeito do silêncio, o jeito da risada, até o jeito de pedir um café.

Era a nossa maneira de viver.

E talvez tenha sido justamente isso que fez a nossa história durar tanto: nós nunca precisamos ser perfeitos. Apenas fomos ficando. Um ao lado do outro. À nossa maneira.

Até que um dia você foi embora.

E eu fiquei.

No começo, achei que não saberia o que fazer com os dias. Depois descobri que os dias não perguntam se a gente está preparado. Eles simplesmente chegam.

Vieram manhãs sem você. Noites sem sua voz. Lugares onde ainda procurei você por um instante, antes de lembrar.

Às vezes ainda tenho vontade de lhe contar alguma coisa e viro o rosto para procurar você.

É nesses momentos que a falta aparece inteira.

Mas também é nesses momentos que me lembro de quanto vivemos.

E penso que, se a vida foi uma folia, nós dançamos muito.

Nem sempre no mesmo ritmo, é verdade.

Mas quase sempre de mãos dadas.

Por isso não quero que a última lembrança seja aquela em que a música parou.

Prefiro lembrar de nós dois no meio da festa.

Dos filhos correndo pela casa. Dos netos chegando. Das conversas compridas. Das risadas. Dos planos. Das pequenas implicâncias. De você me olhando daquele jeito que só você sabia.

Porque foi assim que vivemos.

E talvez seja assim que eu queira continuar vivendo: carregando você sem transformar sua ausência em uma prisão.

Vou seguir.

Vou rir quando tiver vontade. Vou viajar. Vou escrever. Vou me irritar com coisas pequenas. Vou abraçar os filhos e os netos. Vou contar histórias sobre você. E, quando alguém perguntar como foi a nossa vida, vou dizer que foi bonita.

Não porque tenha sido perfeita.

Mas porque foi nossa.

E tem uma coisa que ainda não consigo aceitar.

Não acho justo terminar assim.

Justo agora, quando a folia estava recomeçando.

Quando os filhos já estavam crescidos, os netos chegando, a vida ficando mais tranquila e nós dois começando a ter um pouco mais de tempo para nós.

Justo agora, quando talvez pudéssemos viajar sem pressa, acordar tarde, tomar café demoradamente, ficar olhando o mundo passar.

Justo agora...

E então a banda cessou o som.

Sem aviso.

Sem nos perguntar se estávamos prontos.

A música acabou para você.

Mas eu fiquei aqui, ainda no meio do salão, ouvindo dentro de mim tudo o que a gente viveu.

E é por isso que, quando a saudade vem, eu não quero sair da festa.

Fico mais um pouco.

Danço sozinha, do meu jeito.

E guardo no coração a certeza de que a nossa música tocou por muitos anos.

Se houver outra vida, outro lugar, outra festa...

Espero que você esteja lá.

Eu vou chegar.

Talvez mais devagar, talvez com os cabelos ainda mais brancos, talvez cansada de tanto caminho.

Mas vou reconhecer você.

E, quando você estender a mão, eu vou pegar.

Sem perguntar nada.

Porque depois de uma vida inteira juntos, acho que ainda teremos assunto.

E, quem sabe, uma outra música para dançar.

A gente se encontra pra outra folia.

Silvia Marchiori Buss

 

 

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