A Cada Dia, Uma Parte de Mim Sai à Sua Procura
Hoje foi pela manhã.
Não sei por quê. Talvez
tenha sido a luz entrando pela janela do jeito que entrava quando você ainda
estava aqui. Talvez o silêncio. Talvez aquele segundo, antes de lembrar, em que
a casa pareceu a mesma.
Fui até a cozinha e, por um
instante, esperei ouvir o barulho da sua xícara sendo colocada sobre a mesa.
Não ouvi.
Fiquei ali, parada, olhando
para uma coisa qualquer sobre a bancada, como quem esqueceu o que ia fazer.
Depois ri de mim mesma. Uma risada pequena, sem graça.
É assim agora.
Você aparece onde não
deveria.
No cheiro de café. Numa
camisa que não uso mais, mas também não consigo guardar. Numa música que eu
poderia evitar e, mesmo assim, escuto até o fim. Aparece na maneira como alguém
pronuncia uma palavra, num comentário que eu sei exatamente o que você diria.
Outro dia, procurando uma
chave, encontrei um papel seu dentro de uma gaveta. Não havia nada de
importante escrito nele. Uma anotação qualquer, dessas que a gente faz sem
imaginar que um dia poderão virar relíquia.
Fiquei olhando para a sua
letra.
Foi estranho perceber que
uma letra pode continuar existindo quando a mão que a fez já não está aqui.
Guardei o papel de volta.
Não sei para quê.
Talvez seja isso que
fazemos com quem partiu: vamos guardando pequenas coisas, como se nelas
houvesse alguma possibilidade de permanência.
E há uma coisa ainda mais
estranha: às vezes encontro você em mim.
Na impaciência. No jeito de
franzir a testa. Numa mania que eu julgava sua e descubro, tarde demais, que
também era minha. Até certas palavras começaram a sair da minha boca com a sua
entonação.
Talvez tenha sido assim que
ficamos um no outro sem perceber.
Não como lembrança.
Lembrança é coisa que a
gente guarda.
Você ficou nas coisas que
eu faço sem saber de onde vieram.
Ficou na maneira como
escolho uma fruta no mercado, no lugar onde me sento à mesa, no costume de
olhar pela janela antes de fechar a cortina. Ficou até nas pequenas discussões
que continuo tendo sozinha, porque ainda penso no que você responderia.
Às vezes, tenho vontade de
lhe contar alguma coisa.
Uma bobagem.
Uma notícia. Uma história
que ouvi. Uma pessoa que encontrei na rua.
Chego a pensar: depois eu
conto.
E é nesse “depois” que a
falta se revela.
Porque não existe mais
depois para nós dois.
Existe este tempo estranho
que veio depois de você.
Hoje, por exemplo, coloquei
dois pratos na mesa.
Só percebi depois.
Não tirei o seu.
Fiquei comendo sozinha,
diante daquele prato vazio, sem saber se aquilo era tristeza, hábito ou apenas
uma pequena desobediência ao que a vida passou a exigir de mim.
Não chorei.
Também não precisava.
Há saudades que não
precisam de lágrimas. Elas apenas sentam
ao nosso lado e ficam.
Depois do almoço, lavei os
dois pratos.
Foi quando me dei conta de
que talvez a vida seja feita dessas pequenas crueldades: continuar fazendo as
coisas que sempre fizemos, só que agora sabendo que alguém não vai voltar para
fazê-las conosco.
Ainda assim, a manhã chega.
O café esfria.
As plantas precisam de
água.
O telefone toca.
Alguém bate à porta.
E eu vou.
Vou porque a vida, mesmo
quando parece absurda, não pergunta se estamos prontos para continuar.
Mas continuo de um jeito
diferente.
Há uma parte de mim que
ficou naquele tempo em que você estava aqui. Não sei se algum dia vou buscá-la
de volta.
Talvez nem queira.
Porque, quando penso bem,
talvez eu não esteja procurando você.
Talvez seja uma parte de
mim que ainda não entendeu que precisa voltar.
Ou talvez não volte.
Talvez algumas partes da
gente, depois que amam muito, mudem de endereço para sempre.
Silvia Marchiori Buss
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