Tinha Dias...

Tinha dias em que ela acordava desapaixonada pela vida.

Não era tristeza. Também não era desespero. Era só uma espécie de silêncio por dentro. O despertador tocava, ela levantava, escovava os dentes, abria a janela e olhava a rua como quem olha uma fotografia antiga. Tudo estava no lugar, mas nada parecia chamá-la.

Nesses dias, até o café da manhã era preparado por hábito. A chaleira fervia, o pão ia para a torradeira, e ela seguia os mesmos movimentos de sempre, sem esperar que alguma coisa mudasse.

Curiosamente, mudava.

Não de uma vez. Nunca de uma vez.

Era a primeira xícara de café, ainda quente entre as mãos, que parecia devolver um pouco de cor à manhã. Depois vinha uma música qualquer tocando no rádio. Nem precisava ser sua preferida. Bastava uma melodia conhecida para que alguma lembrança abrisse uma fresta.

Mais tarde, uma árvore carregada de flores no caminho. O riso alto de duas crianças saindo da escola. O senhor da banca de jornais desejando um bom dia como fazia havia anos. O cheiro de pão recém-assado escapando da padaria da esquina.

Sem perceber, ela começava a caminhar um pouco mais devagar.

À tarde, o sol desenhava um retângulo dourado na sala. Ela regava as plantas, respondia uma mensagem esquecida, folheava algumas páginas de um livro. A vida, que amanhecera tão distante, voltava a sentar ao seu lado sem lhe dar explicação.

Nunca eram grandes acontecimentos.

Ninguém lhe telefonava para dar uma notícia extraordinária. Não ganhava prêmios, não mudava de cidade, não encontrava respostas para todas as perguntas.

Era apenas o cotidiano, insistente e discreto, lembrando que ainda havia delicadezas espalhadas pelo caminho.

Ela passou a desconfiar que o encanto da vida não morava nas datas importantes. Talvez morasse justamente em pequenos intervalos: no vapor que subia da caneca, na música que chegava pela janela do vizinho, no cachorro que abanava o rabo para qualquer pessoa, na chuva fina que deixava a calçada brilhando.

E assim acontecia.

Algumas manhãs continuavam nascendo sem entusiasmo. Mas as horas tinham o estranho costume de recolher, uma a uma, as pequenas coisas esquecidas pelo mundo e colocá-las diante dela.

No fim da tarde, quase sempre, ela já não era a mesma mulher que havia acordado.

Nem porque a vida tivesse mudado.

Só porque, mais uma vez, ela havia encontrado um punhado de razões pequenas o bastante para caberem dentro de um único e apaixonante  dia.

Silvia Marchiori Buss

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