Respeito Tuas Lágrimas
A praça ainda guardava o frio da madrugada. Os primeiros raios de sol atravessavam os galhos da velha árvore e desenhavam manchas de luz sobre o banco de madeira. Alguns passavam apressados. Outros diminuíam o passo apenas para sentir a sombra antes de seguir.
Ela chegou quando a cidade
já estava desperta.
Sentou-se como quem conhece
aquele banco havia muito tempo. Não trazia livro, celular nem sacolas. Apenas
uma bolsa pequena, repousada ao lado, e um silêncio que parecia ocupar mais
espaço do que seu próprio corpo.
Ficou olhando o movimento.
Um casal empurrava um carrinho de bebê. Um senhor caminhava com um cachorro que
insistia em farejar cada canteiro. Dois adolescentes riam alto, como se o mundo
lhes devesse muitos anos iguais àquele.
A mulher acompanhava tudo
com os olhos, mas estava longe dali.
Quando a primeira lágrima
escorreu, ela não fez esforço para escondê-la. Apenas deixou que seguisse seu
caminho. Depois veio outra. E outra.
Na mesma hora, uma folha
desprendeu-se da árvore. Girou lentamente antes de alcançar o chão.
Um menino que brincava de
equilibrar-se no meio-fio percebeu a cena. Aproximou-se com a curiosidade
tranquila que só as crianças possuem.
Parou diante dela.
— A senhora machucou o
olho?
Ela sorriu de leve.
— Não.
Ele esperou um pouco.
— Então por que está
chorando?
A mulher olhou para a
árvore antes de responder.
— Porque hoje as lágrimas
resolveram passear.
O menino pareceu aceitar
aquela resposta. Sentou-se na outra ponta do banco, deixando entre eles uma
distância respeitosa.
Os dois permaneceram algum
tempo observando as folhas.
— Elas caem sem fazer
barulho — comentou ele.
— Quase sempre.
— A árvore sente falta
delas?
Ela demorou alguns
segundos.
— Talvez sinta. Mas não
tenta segurá-las.
O menino olhou para os
galhos.
— Meu avô dizia que folha
seca já cumpriu o trabalho dela.
A mulher sorriu.
— Os avôs costumam
encontrar palavras bonitas para coisas difíceis.
O menino encolheu os
ombros.
— O meu não encontra mais.
Faz tempo que morreu.
A frase pousou entre os
dois com a mesma delicadeza das folhas.
Ela virou o rosto para o
menino.
Ele continuava olhando para
a árvore, como se tivesse dito apenas o nome de uma rua.
Depois de um instante,
perguntou:
— Quando a gente sente
saudade, ela pesa igual para todo mundo?
A mulher respirou fundo.
— Acho que não. Cada um
carrega do jeito que consegue.
O menino concordou em
silêncio.
O vento atravessou a copa.
Várias folhas começaram a dançar ao mesmo tempo. Nenhuma parecia disputar lugar
com a outra. Apenas obedeciam ao caminho que o ar desenhava.
Ela enxugou o rosto sem
pressa.
Percebeu que algumas
lágrimas desaparecem na pele. Outras permanecem muito tempo dentro da gente,
invisíveis, como raízes.
O menino levantou-se.
Antes de sair correndo,
apontou para a árvore.
— Acho que ela não fica
triste quando as folhas caem.
— Por quê?
— Porque continua fazendo
sombra.
Ela acompanhou o menino até
que ele desaparecesse entre os canteiros.
A praça voltou ao seu
movimento habitual.
Mais uma folha começou a
descer. Tocou o vento, desviou de um galho, quase alcançou o banco e, só
depois, encontrou a terra.
A mulher observou aquele
percurso inteiro.
Não havia pressa nas
folhas.
Nem nas lágrimas.
Silvia Marchiori Buss
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