Queria Poder Te Dizer

Queria poder te dizer que a vida ficou mais simples. Não ficou!

Ainda tropeço em lembranças como quem esbarra num móvel antigo durante a noite. Conheço o caminho, mas, de vez em quando, esqueço que alguma coisa continua no mesmo lugar.

Há dias em que acordo leve. Faço café, abro a janela, converso com as plantas, reclamo do frio ou do calor. A vida parece cumprir seu dever de seguir adiante. Em outros, basta uma música tocando ao longe, um perfume conhecido ou um casal caminhando devagar para que tudo mude de lugar por dentro.

Queria poder te dizer que aprendi a aceitar as ausências. A verdade é que a gente apenas aprende a conviver com elas. É diferente.

Outro dia, encontrei uma xícara que ninguém usava além de ti. Estava no fundo do armário, como se esperasse uma manhã qualquer. Passei os dedos na borda lascada e sorri. Não porque aquilo doesse menos, mas porque havia uma vida inteira escondida naquele pequeno defeito.

É curioso como as pessoas imaginam que a saudade mora nas grandes datas. Ela prefere os dias comuns. Aparece quando falta açúcar, quando o carro precisa de combustível, quando o filme termina e não há ninguém para comentar o final.

Queria poder te dizer que continuo conversando contigo. Não esperando resposta. Apenas porque alguns hábitos não dependem da presença de ninguém. Dependem da história que foi construída.

Às vezes, enquanto caminho pela rua, penso em alguma notícia qualquer. A vontade de contar ainda nasce antes da lembrança de que não há mais telefone que resolva isso. Então guardo a novidade comigo, e ela acaba fazendo companhia ao resto das coisas que já não têm destino.

As pessoas acreditam que a dor faz barulho. Nem sempre. Muitas vezes ela aprende a falar baixo. Senta-se ao nosso lado, acompanha o almoço, entra no elevador, observa a chuva pela janela. Sem escândalo. Sem alarde.

Se um dia eu pudesse realmente te dizer alguma coisa, talvez nem falasse da falta que fazes.

Contaria que as crianças cresceram um pouco mais. Que teus filhos estão prosperando, continuam se esforçando e, também cresceram com tua ausência...Que algumas árvores da cidade foram cortadas. Que abriram um café novo na esquina. Que ainda existem tardes bonitas e que o céu continua inventando cores diferentes quando o sol vai embora.

Tu gostavas dessas notícias pequenas.

No fundo, eram elas que costuravam nossos dias. E talvez seja por isso que continuo prestando atenção nelas.

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

 

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