O Último Trem das Cinco

Às quatro e quarenta e cinco, a plataforma começava a mudar de humor.

Os bancos ainda estavam ocupados por quem esperava o trem das quatro, vendedores recolhiam carrinhos de café, um funcionário passava a vassoura sem qualquer pressa e os pombos, donos antigos da estação, caminhavam entre os trilhos como se conhecessem todos os horários.

O trem das cinco tinha fama de carregar histórias discretas.

Não era o mais cheio, nem o mais confortável. Levava gente que voltava do trabalho, estudantes com mochilas cansadas, senhoras com sacolas de mercado, homens de mãos ásperas e olhos distraídos. Havia também aqueles passageiros que pareciam viajar por necessidade de pensamento, não de destino.

Entre eles estava Ernesto.

Sentava-se sempre no mesmo banco, perto da última coluna da plataforma. Carregava uma pasta de couro já sem brilho e um jornal dobrado que raramente lia. Olhava mais para os relógios do que para as manchetes.

O bilheteiro sabia seu nome.

O rapaz da limpeza conhecia seu cumprimento.

A moça do café já preparava um pingado antes mesmo de ele pedir.

Ninguém sabia exatamente onde Ernesto trabalhava. Também não perguntavam. As estações ensinam cedo que há pessoas que pertencem mais ao trajeto do que ao endereço.

Numa terça-feira apareceu uma mulher usando um vestido azul-marinho e um chapéu simples de palha. Não parecia turista nem moradora da cidade. Carregava apenas uma pequena mala.

Sentou-se duas posições depois de Ernesto.

No dia seguinte, voltou.

Na quinta também.

Quando o trem chegava, ela embarcava no mesmo vagão que ele, mas nunca no mesmo banco.

Passaram semanas assim.

Um dia, o café atrasou.

Ela olhou para Ernesto.

— O senhor aceita açúcar?

Ele sorriu.

— Aceito conversa.

Ela riu baixinho, como quem não esperava encontrar humor numa plataforma ferroviária.

Descobriram que os dois gostavam de observar pessoas.

Inventavam profissões para desconhecidos.

A senhora de casaco vermelho era professora de piano.

O rapaz de mochila verde certamente escrevia cartas que nunca enviava.

O homem de gravata escura tinha cara de quem escondia fotografias antigas na última gaveta da cômoda.

Nenhuma daquelas histórias precisava ser verdadeira.

Serviam apenas para preencher o percurso entre uma estação e outra.

Com o tempo, passaram a dividir o banco da plataforma.

Às vezes conversavam muito.

Em outras tardes, passavam quase quarenta minutos olhando os trilhos sem dizer palavra alguma.

Era uma amizade feita de intervalos.

Numa sexta-feira de inverno, Ernesto não apareceu.

Ela esperou.

O trem chegou.

As portas abriram.

Fecharam.

Na segunda-feira seguinte, ele voltou.

Trouxe apenas uma frase.

— Minha irmã adoeceu.

Ela respondeu com um gesto de cabeça.

Não perguntou qual doença.

Ele não explicou.

Algumas delicadezas vivem justamente no espaço das perguntas que deixamos de fazer.

Os meses correram junto com o calendário preso na parede da estação.

Chegaram novas pinturas, trocaram as placas de embarque, aposentaram um velho fiscal que conhecia os passageiros pelo barulho dos passos.

Tudo mudava um pouco.

Menos o trem das cinco.

Até que surgiu um aviso.

A linha seria desativada dali a três semanas.

Os jornais falavam em modernização.

Os passageiros falavam em saudade antes mesmo da despedida.

Nos últimos dias, muita gente passou a fotografar a plataforma.

Outros arrancaram pequenos pedaços dos antigos bilhetes de papel para guardar na carteira.

Ernesto apareceu carregando um pacote embrulhado em jornal.

Entregou à companheira de viagens.

Dentro havia um relógio de bolso que não funcionava.

— Meu pai dizia que ele parou na hora errada. Nunca mandei consertar.

Ela virou o relógio nas mãos.

— Talvez ele tenha parado na hora certa.

Os dois sorriram.

O último trem das cinco entrou na estação com menos barulho do que de costume.

As pessoas embarcaram devagar, olhando pela janela como quem tenta decorar uma paisagem.

Quando chegaram ao destino, permaneceram alguns segundos na plataforma.

O maquinista desceu.

Os funcionários começaram a apagar as luzes.

Ernesto colocou as mãos nos bolsos.

Ela segurava o velho relógio.

Do outro lado da estação, um apito distante anunciou a passagem de um trem de carga que não fazia parada ali.

Os dois acompanharam o som até ele desaparecer na curva dos trilhos.

Depois caminharam em direção à saída, sem combinar se voltariam àquela estação quando ela já não tivesse passageiros, bancos ocupados ou horários afixados. Havia lugares que continuavam existindo mesmo depois de perderem a função. Talvez acontecesse o mesmo com certas conversas iniciadas sempre alguns minutos antes das cinco.

Silvia Marchiori Buss

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Não Quero Esquecer do Teu Abraço

As Bruxas Estão Soltas...

As Gavetas da Mente e Suas Chaves Específicas (Crônica)