O Tempo das Romãs

A romãzeira ficava no fundo do quintal. Não era a árvore mais bonita da rua. Também não fazia uma sombra daquelas que convidam para uma rede. Durante boa parte do ano passava despercebida. Só quando começavam a aparecer as flores e, mais tarde, as romãs, é que alguém comentava:

— Este ano carregou bastante.

Lúcia morava naquela casa havia quase quarenta anos.

Quando chegou, o quintal era quase vazio. Plantou roseiras, uma jabuticabeira que nunca foi muito generosa e um canteiro de temperos. A romãzeira já estava ali. O antigo dono disse que era velha e produzia todos os anos.

Produzia mesmo.

Nunca faltaram romãs.

Os filhos cresceram correndo entre as árvores. O cachorro costumava dormir perto do muro. O marido vivia dizendo que precisava podar alguns galhos, mas sempre encontrava outra coisa para fazer.

Os anos passaram desse jeito.

Sem muito alarde.

Depois que ele morreu, a casa ficou grande demais para uma pessoa só.

Os filhos começaram a insistir na mudança.

— Mãe, é muito terreno para cuidar.

— Pensa com carinho.

Ela respondia que pensaria.

E pensava.

Mais de uma vez desistiu de vender. Noutras, chegava a separar documentos. Mudava de ideia antes de telefonar para a imobiliária.

Até que um casal apareceu para conhecer a casa.

Entraram, fizeram perguntas, abriram armários, mediram paredes com os olhos. Pareciam felizes.

Quando chegaram ao quintal, a moça apontou para a árvore.

— Que fruta é aquela?

— Romã.

Ela olhou mais um pouco.

— Acho que dá para tirar. Vai abrir bastante espaço.

O rapaz concordou com um movimento de cabeça e continuaram andando.

Lúcia permaneceu onde estava.

Olhou para a árvore como se a estivesse vendo pela primeira vez.

Naquela tarde, levou uma cadeira até o quintal. Ficou ali enquanto o sol mudava de lugar. Não fazia nada. Apenas observava os galhos balançando devagar.

Uma romã já estava rachada.

Colheu a fruta, abriu com cuidado e deixou as sementes caírem numa tigela de vidro.

Lembrou da mãe fazendo exatamente a mesma coisa, todos os fins de verão. Nunca perguntou o motivo. Também nunca tinha percebido que repetira aquele gesto durante tantos anos.

Dias depois, assinou os papéis.

A mudança foi marcada para uma sexta-feira.

As caixas saíam da casa uma atrás da outra. Os vizinhos acenavam do outro lado da rua. O caminhão já estava quase cheio quando Lúcia entrou mais uma vez no quintal.

A romãzeira continuava carregada.

Algumas frutas começavam a se abrir sozinhas.

Ela esticou a mão, tocou uma delas e desistiu de colher.

O caminhão buzinou na frente da casa.

— Já vou.

Fechou o portão sem olhar para trás.

No banco do passageiro havia uma folha da romãzeira. Não sabia como ela tinha ido parar ali.

Colocou-a entre as páginas de um livro que carregava na bolsa.

O motorista ligou o carro.

Lúcia ajustou o cinto e ficou olhando a rua enquanto as casa iam passando devagar.

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

 

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