O Nome Que Faltava

A primeira palavra desapareceu numa terça-feira de chuva fina, dessas que deixam a cidade inteira com cheiro de pano úmido e café recém-passado.

Helena percebeu por que o livro aberto sobre a mesa parecia ter engolido um pedaço da frase.

“Ele a olhou como quem ______ pela última vez.”

Ela piscou. Pensou que fosse cansaço. Aproximou os óculos do rosto, limpou as lentes na barra do casaco, voltou a ler.

Nada.

O espaço permanecia ali, branco e quieto, como um dente arrancado.

Passou os dedos pela página. Procurou a palavra na memória. Sabia que existia uma palavra exata para aquilo. Uma palavra antiga, usada demais, talvez até desgastada. Ainda assim necessária.

Mas não vinha.

Tentou outra frase.

“Minha mãe sempre dizia que ninguém morre enquanto for ______.”

Vazio.

Abriu um dicionário. As páginas estavam intactas, exceto por pequenas ausências que começavam a aparecer como ferrugem invisível. Verbos inteiros haviam sumido. Substantivos delicados tinham deixado apenas o contorno. Certas cartas guardadas em caixas já pareciam escritas por estrangeiros.

“Meu querido…”

E depois nada.

Naquela noite, Helena revirou a casa.

Encontrou fotografias sem dedicatórias. Bilhetes mutilados. Poemas amputados no meio. Os romances da estante haviam perdido suas frases centrais, como prédios sustentados apenas pelas paredes externas.

O estranho não era apenas o desaparecimento das palavras.

Era o desaparecimento da sensação que vinha com elas.

Ela ainda lembrava do marido arrumando plantas na varanda. Lembrava das mãos dele procurando as suas no cinema. Lembrava do peso do corpo dele adormecido ao seu lado durante cinquenta anos.

Mas já não conseguia nomear o que os havia mantido juntos por tanto tempo.

Aquilo começou a assustá-la mais do que a ausência das palavras.

Porque sem elas, as lembranças pareciam objetos encontrados numa casa abandonada. Ela reconhecia tudo. Só não sabia mais para que serviam.

Nos dias seguintes, o fenômeno avançou.

As pessoas continuavam vivendo normalmente, embora houvesse um desconforto estranho nas ruas. Os casais falavam menos. As mães abraçavam os filhos com uma hesitação difícil de explicar. Floriculturas pareciam lojas de artigos inúteis.

Na televisão, um cantor interrompeu uma música ao vivo porque esqueceu o refrão inteiro.

Os livros de Helena começaram a voltar das editoras.

“Seu novo manuscrito está tecnicamente impecável”, dizia um dos e-mails. “Mas falta alguma coisa impossível de definir.”

Ela queria rir.

Havia passado a vida inteira escrevendo sobre aquilo que agora não conseguia sequer pronunciar.

Tentou continuar trabalhando mesmo assim.

Substituiu palavras ausentes por outras aproximadas.

Afeto.
Costume.
Cuidado.
Desejo.
Companhia.

Nenhuma servia.

Era como tentar substituir o mar por um copo d’água.

Numa madrugada, sem conseguir dormir, Helena abriu uma velha gaveta da cozinha onde guardava papéis inúteis: contas pagas, receitas médicas vencidas, listas de supermercado.

No meio delas encontrou um guardanapo amarelado.

A letra era dele.

“Volto cedo. Não esqueça…”

A frase terminava no vazio.

Helena se sentou no chão frio.

Ficou olhando para aquele espaço em branco durante muito tempo, como se dali pudesse surgir algum ruído antigo. Uma porta abrindo. Um rádio tocando baixo. O som de pratos sendo guardados depois do jantar.

Então percebeu outra coisa.

Mesmo sem a palavra, o corpo ainda reagia.

 (O peito apertou.
Os olhos arderam.
As mãos começaram a tremer devagar. O ar faltava em seus pulmões...uma sensação de morte, de fim )

Na manhã seguinte, Helena saiu sem destino pela cidade.

Havia pessoas sentadas em cafés olhando umas para as outras em silêncio, como se tentassem lembrar de um idioma perdido. Um menino segurava a mão da avó com força excessiva. Uma mulher chorava dentro de uma livraria diante de uma prateleira de poesia completamente esburacada.

Helena caminhou até o rio.

Sentou-se num banco úmido.

Foi então que teve vontade de escrever sem procurar a palavra desaparecida.

Abriu o caderno.

Escreveu sobre o peso de uma cabeça repousando em outro ombro dentro de um ônibus. Sobre alguém esperar acordado até ouvir a chave girando na porta. Sobre dividir a última fruta da casa. Sobre ajeitar o cobertor de quem dorme.

Escreveu páginas inteiras sem usar nenhuma das palavras perdidas.

Quando terminou, percebeu que estava chorando. Não era, exatamente, tristeza

Era outra coisa.

Uma coisa antiga, funda, quase impossível de entender.

Ao longe, duas pessoas caminhavam devagar pela margem do rio. Muito velhas. Uma delas diminuía o passo discretamente para acompanhar a outra.

Helena observou as duas até desaparecerem na curva da ponte.

Depois fechou o caderno.

E ficou ali, tentando escutar o nome silencioso de tudo aquilo que ainda permanecia no mundo, mesmo sem conseguir mais ser dito.

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

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