O Lado Errado da Montanha

Quando comprou a pequena casa ao pé da montanha, Antônio ouviu o mesmo comentário de quase todo mundo.

— Você foi escolher justo o lado errado.

Ele sorria, agradecia a preocupação e mudava de assunto.

Diziam que o sol demorava mais a aparecer por ali, que o inverno parecia mais comprido, que a umidade entrava pelas paredes e que as flores nunca tinham o mesmo colorido das que cresciam do outro lado. Quem podia escolher, escolhia o lado ensolarado.

Mas Antônio não tinha ido atrás da vista perfeita. Procurava apenas um lugar onde o silêncio coubesse dentro dos seus dias.

As manhãs começavam devagar. Enquanto o outro lado da montanha já brilhava, o quintal dele ainda permanecia coberto por uma sombra fria. Ele preparava café, abria a janela e esperava. Sem pressa.

Com o tempo, passou a conhecer as pequenas coisas daquele lugar. Sabia em que pedra os lagartos apareciam primeiro. Conhecia o cheiro da terra antes da chuva. Descobriu que algumas flores preferiam justamente a sombra que tantos criticavam.

Às vezes caminhava até o alto da montanha.

Lá de cima via os dois lados. O que recebia o sol logo cedo e aquele onde morava. Era curioso perceber que, vistos do alto, já não existiam lado certo nem lado errado. Apenas encostas diferentes, iluminadas em horários diferentes.

Numa dessas caminhadas encontrou uma senhora descansando sobre uma pedra.

— O senhor mora em qual lado? — ela perguntou.

— No errado, segundo o pessoal.

Ela riu.

— Engraçado... eu moro no outro. E passo boa parte da vida achando que escolhi o lado errado.

Ficaram alguns minutos olhando o vale sem dizer mais nada.

Antônio voltou para casa pensando em quantas vezes as pessoas imaginam que a felicidade sempre acontece do outro lado de alguma coisa. Do outro lado da cidade, da profissão, da idade, do casamento, do dinheiro, do tempo.

Quase nunca olham com calma para o chão onde já estão.

Na primavera, o quintal de Antônio encheu-se de pequenas flores brancas. Não eram vistosas. Nem chamavam atenção de quem passava pela estrada. Mas apareciam todos os anos, sempre no mesmo canto, como se soubessem exatamente onde queriam nascer.

Quando alguém insistia em dizer que ele morava no lado errado da montanha, Antônio apenas concordava com a cabeça.

Depois servia um café, deixava a conversa seguir por outros caminhos e, enquanto o sol finalmente alcançava a varanda, o quintal ia se iluminando aos poucos, como se nunca tivesse sentido necessidade de chegar antes.

Silvia Marchiori Buss

 

 

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