O Dia Em Que Conversei Comigo
A conversa começou por um motivo banal.
Enquanto procurava uma
fotografia antiga, abri uma gaveta que há muito tempo servia apenas para
guardar aquilo que ninguém tinha coragem de jogar fora. Havia recibos
amarelados, uma agenda sem capa, botões de tamanhos diferentes e um pequeno
espelho de bolsa, já com manchas nas bordas.
Peguei o espelho por
curiosidade.
Não era um objeto bonito.
Também não refletia com perfeição. Ainda assim, havia alguma honestidade
naquela imagem imperfeita. As marcas do vidro impediam qualquer ilusão de
juventude ou vaidade. Mostravam apenas uma mulher comum, com rugas desenhadas
pelo riso, pelo choro e pelo tempo.
Sentei-me na poltrona perto
da janela.
Lá fora, a rua seguia
vivendo da forma como sempre foi. Um cachorro atravessou correndo, uma
bicicleta passou devagar, alguém varria a calçada como fazia todas as manhãs. A
vida mantinha sua rotina enquanto eu permanecia imóvel, olhando para um rosto
que conhecia desde sempre, embora tivesse passado tantos anos sem realmente
observá-lo.
Foi curioso perceber que eu
sabia responder às perguntas de quase todo mundo.
Como você está?
Vai dar certo?
O que você faria no meu
lugar?
As respostas apareciam com
facilidade. A experiência ajuda. A idade também. Mas, diante daquela mulher
refletida no espelho, as perguntas eram outras.
Você está feliz?
Do que sente falta?
O que ainda espera da vida?
Essas demoraram.
Não porque fossem difíceis,
mas porque fazia muito tempo que ninguém as dirigia justamente a quem mais
precisava respondê-las.
Passei boa parte da
existência organizando a vida dos outros. Resolvendo urgências, apagando
incêndios, segurando mãos aflitas, oferecendo colo quando o mundo desabava
sobre alguém. Gostava disso. Ainda gosto. Há uma beleza silenciosa em cuidar.
Só que cuidar também
distrai.
Enquanto olhamos para as
dores alheias, deixamos de visitar as nossas. Elas aprendem a esperar.
Sentam-se num canto qualquer da alma e permanecem ali, educadas, até o dia em
que resolvem bater novamente à porta.
Naquela manhã, bateram.
Não vieram em forma de
lágrimas.
Vieram em forma de
perguntas.
Descobri que havia sonhos
que não morreram. Apenas ficaram quietos.
Descobri que alguns medos
continuavam ocupando espaço muito maior do que mereciam.
Descobri que certas culpas
já nem lembravam por que existiam, mas continuavam morando dentro de mim como
móveis antigos que ninguém tem coragem de retirar.
Sorri.
Achei curioso como
carregamos pesos cuja origem já esquecemos.
A conversa seguiu durante
horas.
Sem voz.
Sem testemunhas.
Sem necessidade de
convencer ninguém.
Em alguns momentos pedi
desculpas a mim mesma.
Por todas as vezes em que
aceitei menos do que desejava.
Por silêncios engolidos
para evitar conflitos.
Por ter acreditado que
força significava nunca demonstrar cansaço.
Também agradeci.
Aquela mulher do espelho
havia atravessado perdas, recomeços, despedidas, medos e dias em que levantar
da cama parecia uma tarefa exageradamente grande. Mesmo assim, continuava ali.
Não intacta.
Mas inteira.
Há diferença.
Os intactos nunca viveram o
suficiente.
Os inteiros aprenderam a
juntar os próprios pedaços sem esconder as emendas.
Quando a tarde começou a
cair, fechei a gaveta.
O pequeno espelho voltou ao
lugar onde permanecera durante tantos anos.
A casa era a mesma.
A rua continuava
movimentada.
A chaleira apitou na
cozinha, lembrando que o café também tem seu horário.
Levantei-me devagar.
Antes de sair do quarto,
olhei uma última vez para o espelho.
Não havia resposta para
tudo.
Nem precisava haver.
Percebi que algumas
conversas não existem para resolver a vida. Existem apenas para lembrar quem
continua morando dentro de nós, mesmo depois que o tempo muda quase tudo ao
redor.
Silvia Marchiori Buss
Comentários
Postar um comentário