Nossos Dias Cinzentos

Quando os dias ficavam cinzentos, Teresa abria a janela mesmo sem vontade. Não esperava que o sol aparecesse. Era apenas um hábito antigo, desses que permanecem quando tantas outras coisas já foram embora.

O céu tinha uma cor só. As árvores da rua pareciam mais quietas. Até o padeiro, que sempre cumprimentava os vizinhos, falava mais baixo.

Ela nunca acreditou que a tristeza viesse apenas das perdas. Às vezes ela chegava sem motivo claro. Instalava-se na casa como a poeira fina que se acomoda sobre os móveis. A gente passa um pano, vive normalmente, mas sabe que ela continua voltando.

Numa dessas manhãs, encontrou uma caixa de fotografias enquanto procurava uma toalha. Sentou-se no chão e foi olhando uma por uma. Havia aniversários, viagens, uma festa de escola, um cachorro que já nem lembrava o nome. Em algumas fotos, tentou descobrir o que fazia aquelas pessoas parecerem tão leves. Não encontrou resposta.

Guardou tudo de novo.

Nem sempre as lembranças servem para matar a saudade. Algumas apenas fazem companhia.

Na semana seguinte, o céu continuava fechado. A roupa demorava a secar no varal. O café esfriava antes de terminar a xícara. A vida seguia daquele jeito comum, sem grandes notícias.

Foi então que percebeu um pequeno botão na roseira do quintal. Achou curioso. Havia semanas que nem olhava para ela.

Sorriu, quase sem perceber.

Não porque acreditasse que uma flor resolvesse alguma coisa. Não resolve. Mas havia certa honestidade naquele botão insistindo em nascer justamente quando o inverno ainda não tinha dado sinais de despedida.

Teresa voltou para dentro de casa.

Os dias continuavam cinzentos. Continuavam longos. Mas agora, sempre que passava pela janela, seus olhos procuravam a roseira antes mesmo de olhar para o céu.

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

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