Metáforas Da Casa Que Sabia Respirar
Havia uma casa antiga no fim de uma rua tranquila. Não era bonita nem feia. Era apenas uma dessas casas que parecem guardar mais silêncios do que móveis.
As janelas passavam dias
fechadas. O relógio da parede ainda marcava as horas, mas ninguém sabia dizer
se era ele quem acompanhava o tempo ou se era o tempo que insistia em visitar
aquele relógio.
Todas as manhãs, uma mulher
varria a varanda. Fazia isso com o mesmo cuidado de quem penteia uma lembrança.
As folhas voltavam no dia seguinte, como se as árvores escrevessem cartas que o
vento nunca deixava chegar ao destinatário.
Ela não brigava com as
folhas. Apenas as recolhia.
Dentro da casa havia uma
cristaleira. Os copos permaneciam alinhados havia anos. Pareciam soldados que
sobreviveram a uma guerra sem nunca terem saído do lugar.
Às vezes, ela abria uma das
janelas. O ar entrava devagar, desconfiado, como um visitante que bate à porta
de alguém que não vê há muito tempo.
E a casa mudava um pouco.
As cortinas se mexiam. O
cheiro da madeira ficava mais leve. Até a luz encontrava um caminho diferente
sobre o piso gasto.
Foi então que ela percebeu
uma coisa curiosa.
As casas também respiram.
Respiram pelas frestas,
pelas janelas abertas, pelas conversas que acolhem, pelas risadas que ficam
presas no teto durante anos. Quando tudo se fecha, elas continuam de pé, mas
passam a viver como quem prende o fôlego.
Naquela tarde, ela colocou
uma chaleira no fogo. Não esperava visita alguma. Ainda assim, preparou duas
xícaras.
O vapor desenhou nuvens
pequenas sobre a cozinha. Por alguns instantes, a casa pareceu sorrir sem fazer
barulho.
Lá fora, um bem-te-vi
pousou no muro. Cantou apenas uma vez e foi embora.
Era pouco...
Mas certas mudanças chegam
desse tamanho. Não derrubam paredes. Apenas lembram às portas que ainda sabem
se abrir.
Silvia Marchiori Buss
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