Entre Lobos

 Quando comprou a pequena casa de madeira na beira da mata, disseram a Ernesto que, no inverno, os lobos desciam.

Disseram como quem avisa sobre a chuva, sobre a geada ou sobre o preço da lenha.

— Não faça barulho à noite. Eles escutam.

Ernesto apenas sorriu. Tinha passado a vida inteira ouvindo avisos. Na infância, para não subir em árvores. Na juventude, para não amar demais. Na velhice, para não começar nada novo.

Comprou a casa assim mesmo.

A vila tinha pouco mais de cinquenta moradores. Gente que falava baixo, fechava as janelas cedo e conhecia o nome dos avós uns dos outros. Ernesto era o único desconhecido.

Nos primeiros dias, caminhava pela floresta sem destino. Gostava do silêncio dali. Não era um silêncio vazio; era cheio de pequenos ruídos: galhos cedendo, folhas secas, água correndo invisível entre as pedras.

Era um silêncio que respirava.

Numa dessas caminhadas encontrou um velho pastor sentado sobre um tronco.

— Procurando os lobos? — perguntou o homem.

— Não.

— Então eles aparecem.

Ernesto riu.

— E quando a gente procura?

— Só encontra pegadas.

Nunca mais esqueceu aquela resposta.

As semanas passaram.

À noite, às vezes, um uivo atravessava o vale. Não parecia ameaça. Parecia conversa entre montanhas.

Os moradores, porém, fechavam portas.

Ernesto acendia o fogão a lenha e continuava lendo.

Certa madrugada, ouviu passos do lado de fora.

Lentos.

Pesados.

Abriu a cortina apenas o suficiente.

Na neve recém-caída havia quatro animais imóveis.

Não rosnavam.

Não rondavam a casa.

Só observavam.

Os olhos refletiam a luz amarela da janela.

Ficaram ali por alguns minutos antes de desaparecerem entre os pinheiros.

No dia seguinte comentou na venda.

Os homens interromperam a conversa.

— Eles estavam medindo você.

Ernesto perguntou o que aquilo significava.

Ninguém respondeu.

Depois disso, os encontros se repetiram.

Nunca muito perto.

Nunca muito longe.

Como vizinhos educados que evitam invadir o quintal alheio.

Com o tempo, Ernesto passou a reconhecer um deles. Era maior. Caminhava mancando da pata dianteira esquerda.

Não sabia por quê, mas toda vez que aquele aparecia, os outros mantinham certa distância.

Numa manhã de fevereiro encontrou marcas de sangue sobre a neve.

Seguiu o rastro por curiosidade.

Atrás de uma grande pedra estava o lobo manco.

Respirava com dificuldade.

Uma armadilha de aço prendia sua pata.

Ernesto permaneceu imóvel.

O animal também.

Os dois pareciam compreender que qualquer gesto precipitado terminaria mal.

Demorou quase uma hora.

Falando baixo, sem palavras importantes, apenas sons que não significavam nada, Ernesto conseguiu se aproximar.

Abriu a armadilha.

O lobo não fugiu imediatamente.

Permaneceu alguns segundos olhando para ele.

Depois desapareceu entre os pinheiros.

Quando voltou à vila, ouviu o inevitável.

— Você teve sorte.

Outro respondeu:

— Ou azar.

Naquela região ninguém parecia acreditar que um encontro pudesse simplesmente acontecer.

Tudo precisava ser presságio.

Veio o inverno seguinte.

Mais rigoroso.

Uma tempestade fechou os caminhos durante três dias.

A neve cobriu cercas, telhados e estradas.

Quando finalmente conseguiu sair, Ernesto encontrou o galinheiro destruído.

Não pelos lobos.

Pelas raposas.

Sorriu sozinho.

Era curioso como a culpa quase sempre chegava antes da verdade.

Na primavera, as flores voltaram. Os lobos foram vistos cada vez menos.

Os moradores disseram que haviam seguido para as montanhas.

Ernesto nunca soube.

Às vezes, durante suas caminhadas, encontrava pegadas frescas ao lado das suas.

Nem à frente.

Nem atrás.

Ao lado.

Como se, por um trecho do caminho, dois mundos diferentes tivessem decidido seguir na mesma direção sem precisar entender um ao outro.

Quando voltava para casa, havia sempre a impressão de que a floresta continuava observando.

Não com desconfiança.

Com aquela curiosidade antiga que existe entre criaturas que aprenderam, cada uma à sua maneira, a sobreviver.

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

 

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