Dona Emília e o Circo
Dona Emília nascera numa cidade pequena, dessas que crescem de costas para a estrada e de frente para um rio. O rio era largo, barrento no inverno, espelhado no verão, e parecia conhecer cada morador pelo nome. As casas baixas se alinhavam em ruas de chão batido, onde as crianças brincavam até o sino da igreja anunciar a hora de voltar.
Naquele lugar, as novidades
demoravam a chegar. Quando chegavam, tornavam-se assunto por meses.
Por isso, bastava alguém
avistar ao longe um caminhão carregando lonas coloridas para que a notícia
corresse mais depressa que o vento.
— O circo chegou!
Era suficiente.
Os meninos abandonavam as
pescarias. As mulheres interrompiam as conversas nas calçadas. Os homens
olhavam para o terreno vazio perto do rio, onde logo surgiriam mastros, cordas,
carroças, trailers e a enorme lona listrada.
Emília era a primeira a
aparecer.
Ainda menina, sentava-se na
barranca do rio apenas para ver o circo nascer. Gostava de observar os homens
erguendo a lona como quem levantava uma catedral provisória. Achava bonito
aquele povo que chegava sem criar raízes e, ainda assim, parecia levar consigo
um pedaço do mundo.
Enquanto as outras crianças
sonhavam em ser professoras, costureiras ou enfermeiras, Emília sonhava em
ouvir diariamente a banda desafinada anunciando o espetáculo.
Adorava o cheiro da
serragem.
As luzes.
O barulho dos animais.
As roupas brilhantes.
O mestre de cerimônias.
Os trapezistas.
Mas havia alguém por quem
esperava mais do que todos.
Os palhaços.
Ela ria antes mesmo de eles
entrarem.
Ria dos sapatos enormes,
das calças largas, do nariz vermelho, das trapalhadas repetidas centenas de
vezes.
Seu pai dizia que aquilo
era bobagem.
Sua mãe respondia:
— Deixa a menina. Há quem
colecione selos. Ela coleciona risadas.
Os anos passaram.
Emília cresceu.
Continuava ajudando em
casa, vendendo doces na praça e olhando, quase diariamente, para o rio. Mas,
sempre que o circo voltava, sentia que alguma coisa dentro dela também
retornava.
Era como reencontrar uma
velha amiga.
Numa dessas temporadas
apareceu um novo palhaço.
Chamava-se Alfredo.
Não era o principal.
Nem o mais espalhafatoso.
Enquanto os outros
tropeçavam em baldes, levavam tortas na cara e arrancavam gargalhadas da
plateia, Alfredo fazia números silenciosos.
Entrava devagar.
Tirava o chapéu.
Cumprimentava uma cadeira.
Conversava com uma flor
imaginária.
Perdia o equilíbrio de
propósito.
Esperava sorrisos, recebia
silêncios.
Muitas vezes, o número
terminava quase sem aplausos.
Na saída, era comum ouvir
comentários.
— Coitado.
— Não nasceu para isso.
— Nunca vi palhaço tão sem
graça.
Emília, porém, enxergava
outra coisa.
Via tristeza escondida
atrás da tinta branca.
Via delicadeza onde os
outros esperavam barulho.
Via um homem tentando fazer
rir sem precisar humilhar ninguém.
Na terceira noite, resolveu
esperar perto da saída dos artistas.
Levou um pedaço de cuca
embrulhado num pano.
— Trouxe para o senhor.
Alfredo sorriu.
— Faz tempo que ninguém me
traz um presente.
Conversaram poucos minutos.
Na noite seguinte, ela
voltou.
Depois outra.
Depois mais outra.
Falavam sobre rios.
Sobre cidades.
Sobre chuva.
Sobre viagens.
Ele contava histórias de
lugares onde nunca permanecia tempo suficiente para decorar o nome das ruas.
Ela descrevia árvores que
jamais haviam saído dali.
Ele dizia sentir inveja de
quem conhecia os vizinhos desde criança.
Ela confessava inveja de
quem podia acordar em qualquer cidade do mundo.
Sem perceber, começaram a
trocar silêncios com a mesma facilidade com que trocavam palavras.
Quando o circo anunciou a
despedida, Emília passou o dia inteiro inquieta.
A cidade, como sempre,
preparava-se para voltar ao seu ritmo antigo.
As crianças já comentavam
qual seria a próxima diversão.
Os comerciantes desmontavam
as barracas.
O terreno começava a
esvaziar.
Naquela madrugada, antes do
sol nascer, um único vulto atravessou a rua principal carregando uma pequena
mala de couro.
Era Emília.
Não levou vestidos
elegantes.
Nem joias.
Nem fotografias.
Levou duas mudas de roupa,
um livro de poemas, uma chaleira pequena e uma coragem que ela própria
desconhecia possuir.
Subiu discretamente na
carroça onde Alfredo a esperava.
O circo partiu antes que a
cidade despertasse.
Durante semanas comentaram
o acontecimento.
Uns diziam que ela
enlouquecera.
Outros garantiam que logo
voltaria arrependida.
Houve quem afirmasse que
fugir com um palhaço era o maior desperdício que uma moça poderia fazer da
vida.
As estações passaram.
Mas Emília não voltou.
Seu nome começou a surgir
em conversas espalhadas pelo interior.
Alguém jurava tê-la visto
vendendo ingressos numa cidade distante.
Outro dizia que agora
costurava figurinos.
Uma senhora afirmava que
ela aprendera a tocar acordeão.
Cada história acrescentava
um detalhe diferente.
Ninguém sabia ao certo.
O que se sabia era que,
onde quer que o circo parasse, havia uma mulher de sorriso largo distribuindo
café aos artistas antes do espetáculo.
E que o palhaço sem graça
continuava entrando no picadeiro.
Só que algo mudara.
Sem trocar uma palavra,
bastava olhar discretamente para a lateral da lona.
Lá estava Emília.
Sentada numa cadeira
simples.
Sempre na primeira fila dos
bastidores.
Ela ria.
Ria das pausas.
Das tentativas.
Dos pequenos gestos que
quase ninguém notava.
E Alfredo, vendo apenas
aquela risada, encontrava coragem para continuar.
Talvez a plateia nunca
entendesse seu humor.
Talvez jamais fosse o
palhaço favorito das crianças.
Mas havia uma pessoa que
ria como se cada número fosse inédito.
Para ele, aquilo bastava.
Muitos anos depois, quando
o circo voltava a alguma cidade ribeirinha, crianças perguntavam quem era
aquela senhora de cabelos brancos que caminhava pelo picadeiro antes da
apresentação, recolhendo um chapéu esquecido, endireitando uma cadeira torta,
alisando com carinho a serragem.
Os mais antigos sorriam.
Ninguém explicava muito.
Apenas diziam que alguns
amores nascem onde todo mundo procura espetáculo, mas sobrevivem justamente
naquilo que passa despercebido.
Silvia Marchiori Buss
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