Destino Intermediário

O trem deslizava entre os Alpes suíços com a delicadeza de quem conhecia cada curva da montanha. Ora surgia um lago de um azul impossível, ora um túnel apagava tudo por alguns segundos. Depois, a luz voltava, como se alguém abrisse outra janela para o mundo.

Ela observava a paisagem desde que embarcara. Não lia. Não ouvia música. Apenas acompanhava a sucessão de pinheiros, chalés e pequenos vilarejos espalhados pelas encostas.

O homem sentado à sua frente fechou o livro que carregava havia quase uma hora.

— Curioso... Sempre que passo por aqui tenho a impressão de que as montanhas mudaram de lugar.

Ela sorriu. Levantou a mão esquerda para prender uma mecha de cabelo atrás da orelha. Duas alianças repousavam no mesmo dedo.

— Tudo sempre muda de lugar.

Ele acompanhou o movimento da mão por um instante e voltou o olhar para a janela.

— Acho que somos nós.

— Também. Mas, às vezes, somos nós que mudamos. Em outras, é a vida que resolve trocar os móveis da alma enquanto saímos para respirar.

Ele sorriu.

— Essa eu nunca tinha ouvido.

— Nem eu. Acabei de pensar.

Os dois voltaram a olhar a paisagem. O silêncio ocupou alguns quilômetros. Era um silêncio leve, desses que não exigem assunto.

— Está viajando a trabalho? — perguntou ele.

— Não. Estou apenas indo.

Ele riu discretamente.

— Boa resposta.

— E o senhor?

— Também. Faz algum tempo que minhas melhores viagens não têm um motivo muito claro.

Ela observou uma pequena igreja perdida entre os campos.

— As que têm destino certo costumam nos levar ao lugar esperado. As outras acabam mostrando lugares que nem sabíamos procurar.

O trem atravessou uma ponte estreita. Lá embaixo, um rio corria apressado, indiferente ao frio.

— Quando eu era jovem — disse ele —, acreditava que a vida seria uma linha reta. Estudar, trabalhar, amar, envelhecer. Como uma estrada.

— E descobriu que era uma ferrovia?

— Nem isso. Acho que é mais parecida com esse rio. Faz curvas que ninguém desenhou.

Ela acompanhou a água até que desaparecesse atrás das árvores.

— Os rios não pedem licença às pedras. A água as contorna.

— Nem ficam discutindo com elas.

— Nós, em compensação, passamos anos conversando com uma única pedra.

Ele riu.

— E esperando que ela responda.

— Ou que peça desculpas por estar no caminho.

O trem mergulhou em outro túnel. Durante alguns segundos, restaram apenas os reflexos dos passageiros nos vidros.

Ele olhou para o próprio rosto refletido.

— Curioso como, no escuro, a gente enxerga mais a si mesmo do que a paisagem.

Ela também se viu no vidro. As alianças apareceram no reflexo quando apoiou a mão no colo.

— Talvez seja para isso que existam os túneis.

Quando a luz reapareceu, um campo verde se abriu diante deles, salpicado de vacas imóveis sobre a encosta.

— A senhora acredita em destino? — perguntou ele.

Ela demorou um pouco.

— Acredito em encontros.

— Faz diferença?

— Bastante. O destino parece uma sentença. Os encontros são convites.

Ele permaneceu pensando enquanto o trem passava por um vilarejo onde algumas crianças esperavam na plataforma. Nenhuma delas parecia ter pressa.

— Já amou muito? — perguntou, com a naturalidade de quem comenta o tempo.

Ela não pareceu surpresa.

— O suficiente.

— Isso quer dizer muito ou pouco?

— Quer dizer que não aprendi a medir.

Ele olhou novamente para as duas alianças.

Ela percebeu, mas não escondeu a mão.

— O amor não cabe muito bem em medidas. Às vezes dura cinquenta anos. Às vezes, cinquenta dias. Há amores que terminam cedo e continuam fazendo companhia por décadas. Outros atravessam uma vida inteira sem nunca chegar muito perto.

Ele ficou em silêncio.

— O curioso é que sempre imaginamos que o desamor seja o contrário do amor.

— E não é?

Ela balançou a cabeça.

— Acho que não. O contrário do amor é a indiferença. O desamor ainda guarda móveis da casa antiga.

Ele olhou pela janela.

As montanhas pareciam caminhar na mesma velocidade do trem.

— Talvez, por isso que algumas lembranças nunca fazem as malas.

— Nem precisam. Encontram qualquer canto e acabam morando ali.

A moça do café passou empurrando um carrinho estreito.

Os dois aceitaram.

Ela envolveu a xícara com as mãos.

— Café recém-passado sempre me lembra começo.

— Engraçado... para mim lembra despedida.

Ela sorriu.

— Deve ser porque as lembranças escolhem lugares diferentes para morar.

Ele levou a xícara aos lábios.

— Passei muitos anos tentando esquecer algumas pessoas.

— Funcionou?

— Descobri que esquecer é um verbo arrogante.

Ela o encarou pela primeira vez.

— Também acho.

— Hoje prefiro guardar sem visitar todos os dias.

Ela concordou com um leve  balançar de ombros.

— As lembranças precisam de janelas. Não de correntes.

Lá fora começou a nevar.

Os flocos caíam devagar, quase sem tocar o chão.

— A neve tem uma delicadeza curiosa — disse ela.

— Por quê?

— Ela nunca pergunta à montanha se pode ficar.

Ele sorriu.

— Apenas chega.

— E parte sem fazer alarde.

O trem diminuiu a velocidade ao atravessar uma pequena estação. Um senhor aguardava sozinho no banco da plataforma. Não embarcou. Apenas observou a composição passar.

— Há pessoas que passam pela nossa vida exatamente como algumas estações — comentou ele.

— A gente reduz a velocidade...

— ...Mas continua viagem.

Ela completou:

— E, mesmo assim, nunca esquece o nome daquele lugar.

Os dois permaneceram alguns instantes olhando pela janela.

Depois ele perguntou:

— Posso fazer uma pergunta indiscreta?

— Pode.

— As duas alianças...

Ela acariciou o dedo, como quem passa a mão sobre uma reliquia.

— As pessoas costumam imaginar uma história quando as veem.

— E acertam?

— Nunca.

Ele esperou.

Ela tomou um gole de café.

— Algumas histórias não melhoram quando são explicadas.

Ele aceitou a resposta como se ela tivesse respondido muito mais do que disse.

O painel luminoso anunciou a próxima parada.

Ele fechou o livro definitivamente.

— Meu destino é aqui.

Ela olhou para o nome da estação sem realmente lê-lo.

— O meu ainda segue um pouco.

Ele colocou a mochila sobre o ombro.

— Foi um prazer dividir esta parte da viagem.

Ela sorriu.

— Talvez todas as conversas devessem acontecer em trens.

— Por quê?

— Porque ninguém entra imaginando que vai mudar a vida de alguém. Assim as palavras ficam mais leves.

As portas se abriram.

Ele desceu.

Na plataforma, voltou-se apenas uma vez para localizar a janela onde ela permanecia.

Ela ergueu a xícara num discreto gesto de despedida.

O trem voltou a deslizar entre os Alpes.

Durante alguns minutos ela ainda enxergou a estação diminuindo de tamanho até desaparecer numa curva.

Depois olhou para o vidro.

As montanhas continuavam exatamente onde sempre estiveram.

Sorriu sozinha.

Talvez elas nunca tivessem mudado de lugar.

Talvez fossem apenas as pessoas que, de tempos em tempos, aprendiam a enxergá-las de outro ponto da viagem.

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

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