Antas de Dormir

Todas as noites, antes de dormir, Teresa encontrava alguma coisa para fazer.

Lavava uma xícara que já estava limpa, alinhava os sapatos perto da porta, passava um pano na pia da cozinha, mesmo sem uma gota de água. Não era capricho. Era um jeito de adiar o momento de entrar no quarto.

Morava sozinha havia alguns anos.

Os filhos telefonavam quase todos os dias. Aos domingos, um deles aparecia para o almoço. Os netos deixavam a casa de pernas para o ar e iam embora carregando um pedaço do bolo que ela fazia questão de assar.

Mas, quando a noite chegava, a casa voltava ao tamanho de uma pessoa só.

Foi numa quarta-feira que ela ouviu uma gargalhada no apartamento ao lado.

Não prestou muita atenção.

Na noite seguinte, ouviu de novo.

Depois vieram vozes, uma panela caindo, alguém cantando desafinado enquanto lavava a louça. Eram barulhos comuns, desses que atravessam a parede sem pedir licença e acabam fazendo parte da rotina de um prédio.

Sem perceber, Teresa passou a reconhecer os horários.

Enquanto escovava os dentes, esperava ouvir alguma conversa.

Quando fechava a janela da sala, quase sempre alguém ria do outro lado.

Era curioso como pessoas que ela nunca tinha visto podiam dar a impressão de que o prédio estava mais cheio.

Num sábado, não ouviu nada.

No domingo também não.

Na segunda-feira, o silêncio continuava.

Na terça, encontrou a vizinha junto ao elevador. Havia caixas de papelão empilhadas e uma fita adesiva presa ao pulso.

— Estamos nos mudando. Meu marido foi transferido.

Conversaram pouco.

Comentaram o frio, desejaram boa sorte e cada uma entrou no seu apartamento.

Naquela noite, Teresa fez o que fazia sempre.

Conferiu a porta, apagou as luzes da sala, deixou um copo de água sobre o criado-mudo.

Quando se deitou, esperou sem querer o barulho da cozinha ao lado.

Não veio.

Virou o travesseiro, ajeitou o cobertor e ficou olhando para o teto.

Nunca tinha conversado de verdade com aqueles vizinhos.

Mesmo assim, o apartamento parecia maior do que na noite anterior.

Só adormeceu quando um elevador parou no andar de cima, uma porta bateu ao longe e o prédio voltou a produzir aqueles ruídos pequenos que lembram que ainda há gente acordada.

Era disso que ela precisava antes de dormir.

Silvia Marchiori Buss

 

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