A Última Carta Nunca Lida
A carta estava dentro da gaveta de baixo, entre um lenço de cambraia e três fotografias que já tinham perdido a coragem das cores.
Não era uma carta bonita. O
envelope, amarelado nas bordas, tinha uma mancha de café no canto esquerdo e o
nome escrito com uma firmeza antiga, dessas que não pedem licença.
— Joga isso fora — disse
Rosa, a irmã mais prática, encostada na porta do quarto. — Papel velho só serve
para juntar pó e fantasma.
Celina não respondeu.
Estava sentada na beira da
cama, com os pés no chão frio, olhando para aquele envelope como se ele
respirasse. A casa inteira cheirava a armário aberto, cera de chão e chuva
parada. Do lado de fora, as folhas da pitangueira batiam no vidro, insistentes,
como dedos miúdos chamando alguém.
A mãe morrera havia quatro
dias.
Aos noventa e dois anos,
Laura ainda guardava coisas com a teimosia de quem não confia na memória dos
outros. Guardava recibos, botões, santinhos, cartões de aniversário, bilhetes
de farmácia, listas de supermercado com meia dúzia de palavras: arroz, sabão,
vela, maçã. Tudo dobrado, separado, nomeado.
Mas aquela carta não tinha
data.
Só o nome.
Celina.
— Abre logo — disse Rosa,
já impaciente. — Vai ver é receita de bolo.
Celina passou o dedo pela
aba colada.
A mãe nunca lhe entregara
aquela carta. Nunca mencionara sua existência. E, ainda assim, ela estava ali,
dentro da gaveta de baixo, como se tivesse esperado a casa ficar vazia para
aparecer.
— Não sei se quero ler.
Rosa deu um riso seco.
— Tu sempre foste
dramática.
Celina sorriu sem alegria.
Tinha sessenta e sete anos e ainda ouvia a infância na voz da irmã. Havia
coisas que envelheciam junto com a gente, mas não amadureciam.
Rosa saiu do quarto levando
uma caixa de sapatos cheia de documentos. Celina ficou.
O silêncio, quando se
instala numa casa de morto recente, não é silêncio. É inventário.
Cada móvel parecia dizer
alguma coisa. A penteadeira lembrava a mãe prendendo os cabelos antes da missa.
A poltrona guardava o formato do corpo dela nas tardes de novela. O rádio, mudo
sobre a cômoda, parecia uma boca fechada à força.
Celina olhou de novo para o
envelope.
A carta não lida pesava
mais do que todas as palavras já ditas naquela família.
Durante a vida inteira, ela
tivera a sensação de que a mãe lhe devia uma frase. Não sabia qual. Talvez uma
explicação. Talvez um pedido de perdão. Talvez nada disso. Às vezes, o que
falta entre duas pessoas não é amor. É idioma.
Laura fora uma mãe correta.
Roupas limpas, comida na mesa, remédio na hora, escola paga com sacrifício.
Beijo, não. Abraço, raramente. Elogio, quando escapava, vinha disfarçado de
crítica:
— Até que ficou bom.
Celina cresceu dentro desse
“até que”.
Na juventude, fugiu para
Porto Alegre com uma mala marrom e uma vontade enorme de ser outra. Casou,
descasou, escreveu cartas que nunca enviou, mudou de emprego, mudou de corte de
cabelo, mudou de opinião sobre quase tudo. Mas, diante da mãe, continuava menina.
Uma menina esperando ser chamada para perto.
A chuva engrossou.
Na sala, Rosa discutia com
o marido sobre quem ficaria com a cristaleira. Celina ouviu a palavra “valor”
atravessar o corredor.
Olhou o envelope.
Era curioso: podia abrir.
Bastava rasgar a aba, puxar o papel, deixar que a letra da mãe atravessasse
décadas. Mas havia um perigo nas palavras guardadas por tempo demais. Elas não
chegam sozinhas. Trazem cheiro, febre, versões.
Celina levantou-se e foi
até a janela.
Do outro lado da rua, o
menino do vizinho tentava empinar uma pipa vermelha debaixo da garoa fina. A
pipa não subia. Ele insistia assim mesmo, correndo entre as poças, rindo
sozinho.
Ela pensou em quando tinha
oito anos e quebrara o vaso azul da sala. A mãe não batera. Só olhara para os
cacos e dissera:
— Tem coisa que não volta
ao lugar.
Celina nunca soube se Laura
falava do vaso.
Voltou para a cama. Pegou a
carta.
O papel fez um ruído
mínimo, quase um suspiro. A cola estava fraca. Bastava pouco.
Na porta, Rosa reapareceu.
— Ainda com isso?
— Ainda.
— Celina, mãe era cheia
dessas manias. Vai ver escreveu num dia ruim. Depois esqueceu. Não faz novela.
Celina segurou o envelope
contra o peito.
— E se ela não esqueceu?
Rosa ficou quieta por um
segundo. Depois desviou os olhos.
— Então pior.
Era a frase mais sincera
que a irmã dissera naquele dia.
Quando todos foram embora,
a casa ficou enorme.
Celina acendeu uma luz
pequena na cozinha e fez café. Usou a xícara preferida da mãe, a branca com uma
rachadura fina perto da asa. Sentou-se à mesa, onde tantas conversas tinham
morrido antes de nascer.
A carta estava diante dela.
A noite avançava com seus
ruídos: o motor distante de um carro, um cachorro latindo sem convicção, a
geladeira estalando, a chuva pingando da calha. Celina colocou os óculos,
tirou, limpou as lentes, tornou a colocar.
Pensou na mãe jovem. Uma
Laura que ela quase não conhecera. Laura antes das varizes, antes da viuvez,
antes da voz seca. Laura com vestido de bolinhas, dançando em algum salão de
madeira, rindo sem vigiar o riso. Teria existido essa mulher? Ou era invenção
bondosa de quem precisa salvar os mortos de sua própria dureza?
O envelope parecia menor
agora.
Celina abriu a gaveta da
cozinha e procurou uma faca. Não achou. A mãe guardava as coisas em lugares que
só ela entendia.
Riu baixinho.
— Até depois de morta, tu
escondes as facas.
Foi então que viu, entre o
açucareiro e a lata de chá, uma pequena caixa de fósforos. Pegou-a. Ficou
olhando.
Não tinha decidido queimar
nada. Só segurava a possibilidade.
A chama nasceu frágil.
Celina aproximou o
envelope, mas não o bastante. O fogo iluminou por um instante o nome dela
escrito pela mãe. A letra era bonita. Mais bonita do que a voz.
Apagou o fósforo.
Depois, sem pressa, guardou
a carta dentro da bolsa.
Na manhã seguinte, Rosa
telefonou cedo.
— Leste?
Celina olhava pela janela
do ônibus. A cidade passava molhada, indiferente, viva.
— Ainda não.
— E vai ler?
Celina demorou.
No colo, a bolsa parecia
guardar um coração emprestado.
— Um dia.
— Que dia?
O ônibus parou diante de
uma praça. Um homem vendia flores debaixo de uma lona azul. Havia margaridas,
crisântemos e umas rosas meio abertas, cansadas da chuva.
Celina desceu sem
responder.
Comprou um maço pequeno de
flores brancas e caminhou até a agência dos Correios. Lá dentro, pediu um
envelope novo, maior, resistente.
A moça do balcão perguntou:
— Vai enviar alguma coisa?
Celina tirou da bolsa a
carta antiga. Passou os dedos sobre o próprio nome. Por um momento, pareceu que
ia abrir.
Mas colocou a carta intacta
dentro do envelope novo.
No destinatário, escreveu
apenas:
Para quando eu tiver
coragem.
A atendente franziu a
testa.
— Senhora, assim não chega.
Celina sorriu.
— Eu sei.
Saiu com o envelope debaixo
do braço e atravessou a rua devagar. A chuva tinha parado, mas as árvores ainda
pingavam como se demorassem a acreditar no sol.
Em casa, guardou a carta na
gaveta de baixo da sua própria cômoda.
Entre um lenço limpo e uma
fotografia onde aparecia rindo, sem lembrar de quem.
Naquela tarde, fez café
forte, abriu a janela e deixou a casa respirar.
A carta continuou fechada.
Mas já não estava no mesmo
lugar.
Silvia Marchiori Buss
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