A Mulher Que Sabia Voar

Quando diziam que Clara sabia voar, muita gente ria.

Quem a conhecia há pouco imaginava alguma história inventada pela vizinhança, dessas que atravessam gerações até perderem o sentido. Os mais velhos apenas davam de ombros. Não confirmavam nem desmentiam. Diziam que havia coisas que só podiam ser vistas por quem não estivesse com tanta pressa.

Clara morava numa casa pequena, de janelas azuis, onde o vento parecia chegar antes das visitas. Nunca viveu cercada de grandes acontecimentos. Dava aulas durante muitos anos, regava as plantas antes do café e tinha o costume de conversar com os passarinhos sem esperar resposta.

O curioso era que ela desaparecia.

Não por dias. Às vezes por alguns minutos. Outras vezes por uma tarde inteira.

Alguém passava em frente à casa e a encontrava vazia. O bule ainda morno, um livro aberto sobre a mesa, os óculos esquecidos ao lado da poltrona.

Mais tarde, ela voltava como quem apenas havia ido até a esquina comprar pão.

— Onde esteve?

— Por aí.

Era sempre a mesma resposta.

Havia quem jurasse tê-la visto sentada sobre uma pedra olhando o rio. Outros garantiam que ela aparecia caminhando entre os eucaliptos, muito longe dali, embora não houvesse estrada que levasse até aquele lugar em tão pouco tempo.

As crianças eram as únicas que não faziam perguntas.

Aceitavam que algumas pessoas soubessem desaparecer.

Para elas, isso parecia perfeitamente possível.

Com o passar dos anos, Clara foi acumulando pequenas perdas, como todo mundo.

Enterrou os pais.

Despediu-se de amigos.

Viu a cidade trocar as árvores por estacionamentos, as vendas por mercados, os bancos das praças por placas dizendo o que era proibido fazer.

Nunca comentou essas ausências.

Apenas começou a desaparecer com um pouco mais de frequência.

Certa vez, uma vizinha a encontrou sentada na varanda.

— Você não fica triste?

Clara demorou para responder.

Olhava uma folha seca girando no quintal.

— Fico.

 

— E o que faz?

Ela sorriu daquele jeito distraído.

— Vou voar um pouco.

A vizinha não entendeu.

Pensou que fosse uma maneira delicada de mudar de assunto.

Mas, naquela mesma noite, enquanto fechava as janelas por causa do vento, teve a impressão de ver um vulto cruzando o céu.

Não era pássaro.

Também não parecia avião.

Era apenas uma presença leve atravessando a escuridão.

Nunca comentou com ninguém.

Achou melhor guardar para si.

Com o tempo, as pessoas passaram a procurar Clara quando a vida apertava demais .Não porque esperassem respostas .Ela raramente dava conselhos, mas acolhia.

Servia café.

Escutava. Sabia escutar.

Às vezes mudava a cadeira de lugar para que a visita pudesse enxergar a janela.

Outras vezes oferecia uma laranja recém-colhida.

Quando a conversa terminava, quem saía dali tinha a estranha sensação de ter respirado melhor.

Ninguém sabia explicar por quê.

Um menino, que costumava passar as tardes desenhando na calçada, fez um retrato dela.

Não desenhou asas. Nem desenhou nuvens.

Pintou apenas os pés alguns centímetros acima do chão.

A professora perguntou por que havia feito aquilo.

Ele respondeu naturalmente:

— Porque ela nunca pisa em tudo que machuca.

Anos depois, o desenho continuava preso na porta da geladeira da mãe.

O papel já amarelado, as bordas dobradas, mas os pés continuavam suspensos.

Quando Clara envelheceu, passou a andar devagar.

Os joelhos reclamavam.

As mãos tremiam um pouco ao servir o café.

Quem a via caminhando pela rua dificilmente acreditaria na velha história.

Voar parecia coisa de gente jovem.

Ela mesma ria quando alguém insinuava.

— Nesta idade?

E seguia andando com a sacola das compras apoiada no braço.

Numa manhã de inverno, o carteiro encontrou a casa aberta.

Chamou por ela.

Ninguém respondeu.

Sobre a mesa havia uma carta pela metade, um vaso com flores do campo e um cachecol cuidadosamente dobrado.

Tudo muito comum.

Dias depois, Clara reapareceu.

Mais silenciosa do que antes.

Plantou duas mudas de limão no quintal e continuou levando a vida como sempre.

A cidade também seguiu adiante.

Outras histórias ocuparam as conversas.

Outros nomes passaram a ser lembrados.

Ainda assim, de vez em quando, alguém comenta que, em certas tardes de vento, há uma figura atravessando o alto do morro.

Ninguém consegue dizer se é uma mulher caminhando, uma sombra alongada pelo sol ou alguma ave aproveitando a corrente de ar.

As crianças costumam levantar os olhos.

Os adultos, quase sempre, continuam andando.

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

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