A Mulher de Preto

A estrada de chão dividia os campos como uma cicatriz antiga. De um lado, eucaliptos altos conversavam com o vento; do outro, o capim balançava em ondas compridas, escondendo pedras, ninhos e pequenos silêncios. Quando a tarde começava a perder a cor, uma névoa fina descia das baixadas e transformava tudo em contorno.

Era ali que ela surgia.

Vestia um longo vestido preto, sem rendas, sem brilho, como se tivesse sido costurado com a própria sombra da noite. O tecido descia reto até cobrir os pés. Sobre os ombros repousava um xale escuro, sempre imóvel, mesmo quando o vento sacudia as árvores.

Era alta. Muito alta.

Os cabelos, grisalhos em algumas mechas e negros em outras, permaneciam presos num coque simples. O rosto era fino, de pele muito clara, quase translúcida. As maçãs do rosto eram marcadas e os olhos, grandes, possuíam um tom impossível de definir. À distância pareciam negros; quando alguém se aproximava, lembravam o cinza das tempestades.

As mãos chamavam atenção. Longas, delicadas, de dedos elegantes, permaneciam cruzadas à frente do corpo, como quem aguardava alguma coisa que jamais chegava.

Ela nunca sorria.

Também nunca demonstrava tristeza.

Ficava apenas olhando a estrada.

Os moradores das redondezas aprenderam a conviver com aquela figura sem fazer perguntas. As crianças, curiosas, diminuíam a corrida ao passar pelo lugar. Os mais velhos tiravam o chapéu discretamente. Os peões evitavam tocar no assunto durante o chimarrão, como se pronunciar qualquer palavra pudesse desfazer um acordo silencioso.

Havia dias em que ela permanecia imóvel durante horas.

Em outros, caminhava devagar pela margem da estrada, sempre na mesma direção, até desaparecer dentro da neblina.

Os cachorros não latiam.

Os cavalos apenas levantavam a cabeça e acompanhavam seus passos.

As corujas, curiosamente, começavam a cantar mais cedo nas tardes em que ela aparecia.

Com o passar dos anos, pequenas histórias nasceram ao redor daquela presença.

Um caminhoneiro jurava que, ao cochilar por um segundo, viu a mulher levantar lentamente a mão. Acordou assustado e conseguiu desviar de uma ponte parcialmente destruída pela chuva.

Uma professora contou que, voltando da cidade, enxergou a silhueta parada no acostamento. Reduziu a velocidade sem saber por quê. Logo adiante, uma árvore enorme havia caído sobre metade da estrada.

Um rapaz, perdido depois de uma pescaria, dizia ter seguido o vulto escuro durante vários minutos. Quando percebeu, estava exatamente diante da porteira de casa.

Nenhum deles afirmava ter ouvido sua voz.

Ela jamais chamava.

Jamais fazia sinal.

Apenas existia.

Num inverno especialmente rigoroso, um fotógrafo amador decidiu registrar a figura misteriosa. Esperou escondido atrás de uma figueira centenária até o fim da tarde. Quando a mulher apareceu, ergueu a câmera com as mãos trêmulas.

Fez uma fotografia.

Depois outra.

Mais uma.

Ao revelar os negativos, encontrou a estrada vazia em todas elas.

Nem sombra.

Nem vestido.

Nem o menor contorno.

O curioso era que, na última imagem, surgia uma fileira de flores-do-campo brotando onde, minutos antes, só havia barro endurecido.

As flores permaneceram ali durante semanas.

Ninguém conseguiu explicar como nasceram fora da estação.

Os anos seguiram seu ritmo.

As cercas foram trocadas.

As casas ganharam pintura nova.

Os filhos partiram para cidades maiores.

Os netos voltavam apenas nas férias.

A estrada, porém, continuava igual.

E a mulher também.

Parecia que o tempo respeitava sua presença.

Certa noite, uma tempestade desabou sobre a região. Raios rasgavam o céu com tanta força que as janelas estremeciam. Um arroio transbordou e levou parte da estrada.

Na manhã seguinte, os moradores foram verificar os estragos.

No trecho mais castigado pela enxurrada havia marcas profundas deixadas pela água.

Bem na beira do barranco, onde qualquer pessoa teria sido arrastada pela correnteza, apareciam pegadas.

Pequenas.

Descalças.

Seguiam em linha reta até desaparecer sobre a terra seca.

Ao lado delas, nenhuma outra marca.

Nenhum sinal do vestido.

Nenhum rastro de quem pudesse tê-las deixado.

Desde então, alguns garantem que ela continua caminhando pela estrada ao cair da tarde.

Outros dizem que agora prefere permanecer perto da velha figueira.

Há quem assegure ter cruzado com uma senhora de preto numa rodoviária distante, numa estação de trem abandonada ou na varanda de uma igreja antiga.

As descrições são sempre as mesmas: o vestido escuro, o coque bem preso, as mãos delicadas e aqueles olhos da cor das nuvens carregadas.

Quando o sol começa a desaparecer atrás dos eucaliptos e a névoa sobe lentamente dos campos, ainda existe quem diminua o passo antes de seguir viagem.

Não por medo.

Há presenças que parecem guardar caminhos.

E há caminhos que, depois de escurecer, preferem continuar pertencendo apenas a elas.

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

 

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