A Mulher com Cheiro de Acácia

Havia dias em que a cidade parecia respirar mais devagar. Nessas manhãs, quando a neblina demorava a abandonar as árvores da praça e o sino da igreja chegava abafado às janelas, algumas pessoas comentavam que o perfume de acácia voltara a caminhar pelas ruas.

Não era um aroma comum. Não vinha dos jardins, nem das poucas acácias que resistiam ao tempo. Era um perfume leve, fresco, impossível de prender na memória por inteiro. Bastava tentar descrevê-lo para que escapasse, como fazem os sonhos ao despertar.

Quem sentia aquele cheiro costumava erguer a cabeça sem saber por quê.

E quase sempre a via.

Uma mulher atravessando a rua com passos tranquilos, vestida de tons claros, sem pressa, sem idade aparente. Os cabelos acompanhavam o vento mesmo quando não havia vento. O rosto nunca permanecia tempo suficiente para ser lembrado com exatidão.

Uns diziam que ela sorria.

Outros juravam que seus olhos carregavam uma tristeza muito antiga.

As versões nunca coincidiam.

A única certeza era o perfume.

Na padaria, um menino contou que ela havia deixado uma moeda antiga sobre o balcão. A moeda desapareceu antes que alguém pudesse tocá-la.

No asilo, uma senhora garantiu que conversara longamente com aquela mulher sobre um vestido azul usado em um baile da juventude. A família estranhou. Ninguém conhecia a história daquele vestido.

Um carteiro afirmava encontrá-la nas manhãs de chuva. Sempre no mesmo cruzamento. Ela agradecia com um discreto movimento da cabeça, embora nunca recebesse cartas.

Já um taxista dizia que a levou até o alto do morro numa tarde de inverno. Quando estacionou e olhou pelo espelho para perguntar se aquele era o destino correto, encontrou apenas o banco vazio e o perfume de acácia preenchendo o carro inteiro.

Durante dias, recusou passageiros que usassem perfumes florais.

Achava que seria desrespeito.

Os cachorros nunca latiam para ela.

As crianças acenavam.

Os velhos sorriam sem perceber.

As árvores pareciam balançar um pouco mais quando ela passava.

Com o tempo, cada morador passou a guardar sua própria lembrança daquela presença discreta.

Havia quem acreditasse tratar-se de alguém que nunca conseguira partir.

Outros preferiam imaginar que certas pessoas recebem a missão silenciosa de visitar corações cansados.

Também existiam os incrédulos, naturalmente. Atribuíam tudo à força da imaginação, às histórias repetidas nas rodas de chimarrão, ao perfume carregado pelo vento.

Curiosamente, muitos desses incrédulos mudavam de assunto quando, sem explicação, o ar ao redor adquiria o delicado cheiro de acácia.

Certa tarde, uma professora encontrou um livro antigo na biblioteca municipal. Entre as páginas havia uma flor seca de acácia.

Ao abrir o volume, o perfume espalhou-se pela sala.

A bibliotecária levantou os olhos ao mesmo tempo.

As duas trocaram um olhar silencioso.

Nenhuma comentou o que havia sentido.

O livro não registrava o nome do antigo dono.

Na última página existia apenas uma frase escrita com tinta já desbotada:

"Algumas pessoas continuam visitando o mundo da única forma que o amor conhece."

A professora fechou o livro devagar.

Do lado de fora, uma mulher atravessava a praça.

O vestido claro parecia recolher a luz do fim da tarde.

Não havia flores por perto.

Mesmo assim, o perfume de acácia caminhava junto com ela, misturando-se ao vento que passava entre as árvores, como se a cidade já soubesse reconhecer sua presença sem precisar fazer perguntas.

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Não Quero Esquecer do Teu Abraço

As Bruxas Estão Soltas...

As Gavetas da Mente e Suas Chaves Específicas (Crônica)