Um Nome Escrito no Espelho
Quando Helena percebeu o nome pela primeira vez, pensou que fosse uma brincadeira da própria imaginação.
Estava saindo do banho. O
vapor ainda cobria o espelho do banheiro quando ela viu as letras surgirem aos
poucos, como se alguém as desenhasse por trás da névoa.
Miguel.
Ela ficou imóvel.
Passou a mão sobre o vidro
e o nome desapareceu junto com a umidade.
Sorriu de si mesma.
Aos sessenta e cinco anos,
morando sozinha havia quase uma década, conhecia bem as peças que a memória
pregava. Às vezes acordava certa de ter ouvido a voz da mãe chamando da
cozinha. Outras vezes jurava ter visto o marido sentado na poltrona da sala.
Miguel.
O nome, porém, não lhe
dizia nada.
Não conhecia nenhum Miguel
importante. Nenhum amor antigo, nenhum parente esquecido.
No dia seguinte, o nome
apareceu novamente.
E no outro também.
Sempre da mesma forma.
Miguel.
Durante uma semana, Helena
tentou ignorar.
Na segunda semana, começou
a fotografar.
Na terceira, decidiu
investigar.
Revirou álbuns de família.
Caixas guardadas no alto do
armário.
Cartas antigas.
Agendas amareladas.
Nada.
Nenhum Miguel.
Era como procurar uma
pessoa que nunca existira.
Numa tarde chuvosa, levou
uma das fotografias para a amiga Teresa.
— Você acredita que isso
aparece sozinho?
Teresa ajustou os óculos.
— Talvez alguém tenha
escrito no espelho há muito tempo. Quando o vapor volta, a gordura dos dedos
reaparece.
— Por semanas?
— Por meses, às vezes.
A explicação parecia
razoável.
Ainda assim, Helena voltou
para casa decepcionada.
No fundo, não queria uma
resposta simples.
Queria entender por que
aquele nome mexia tanto com ela.
Naquela noite, sonhou com
uma estação de trem.
Havia gente entrando e
saindo dos vagões.
Muitos rostos.
Nenhum conhecido.
No banco de madeira da
plataforma, um menino desenhava algo num caderno.
Quando levantou a cabeça,
sorriu para ela.
— Demorou.
Helena acordou antes que
ele dissesse mais alguma coisa.
O sonho a acompanhou o dia
inteiro.
Dias depois, caminhando sem
rumo pelo centro da cidade, entrou num sebo.
Gostava do cheiro dos
livros usados.
Era como visitar vidas
emprestadas.
Enquanto percorria as
prateleiras, um volume fino caiu sozinho no chão.
Ela o recolheu.
Na primeira página havia
uma dedicatória.
"Para Miguel, que
partiu cedo demais, mas deixou o mundo um pouco mais bonito."
Helena sentiu um arrepio.
Comprou o livro.
Em casa, descobriu que era
um diário transformado em romance.
A autora contava a história
do irmão mais novo, morto ainda criança.
Miguel.
Entre as páginas havia
fotografias antigas.
Numa delas, um grupo de
crianças brincava diante de uma escola.
Helena observou a imagem
por vários minutos.
E então viu.
Uma menina de tranças.
Ela.
Ou alguém incrivelmente
parecido.
Virou a fotografia.
No verso, uma anotação
quase apagada:
"Turma de 1965."
Helena fez as contas.
A idade batia.
A escola também.
Sentou-se lentamente.
Havia passado mais de quarenta
anos.
Uma vida inteira.
E, aos poucos, uma
lembrança começou a emergir.
Não como uma cena nítida.
Mais como um perfume
conhecido.
Um recreio.
Uma árvore.
Um menino magro.
Uma caixa de lápis de cor.
Miguel.
O primeiro amigo que
tivera.
O menino que desenhava
pássaros em qualquer pedaço de papel.
O menino que faltou às
aulas durante semanas.
O menino sobre quem ninguém
mais falou.
A memória voltou em
fragmentos.
Uma doença.
Um enterro.
Adultos cochichando.
Crianças sendo distraídas
para esquecer.
E ela esqueceu.
Durante décadas.
Até acreditar que nunca
existira.
Na manhã seguinte, Helena
entrou no banheiro antes mesmo do café.
Esperou o vapor cobrir o
espelho.
Esperou.
E lá estava.
Miguel.
Pela última vez.
Ela aproximou a mão do
vidro.
Não para apagar.
Para tocar.
Como quem cumprimenta um
velho amigo.
Ficou ali alguns segundos.
Depois sorriu.
Não de tristeza.
Nem de alegria.
Daquele sentimento raro que
surge quando algo perdido encontra seu lugar.
Passou os dedos sobre as
letras.
O nome desapareceu.
E nunca mais voltou.
Mas, às vezes, ao sair do
banho, Helena ainda observa o espelho por alguns instantes.
Não esperando que um nome
apareça.
Mas porque aprendeu que a
memória tem seus próprios caminhos.
E que certas pessoas, mesmo
depois de uma vida inteira de silêncio, encontram um jeito de bater à porta.
Silvia Marchiori Buss
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