Sob o "Cabo do Medo"

Desde pequena, Sofia carregava um medo que não cabia no tamanho de seu corpo.

Enquanto outras crianças temiam trovões, escuro ou monstros escondidos sob a cama, ela tinha medo das despedidas. Medo de perder quem amava. Medo de que a mãe demorasse demais para voltar do mercado. Medo de que o pai não retornasse de uma viagem. Medo de que os avós, tão velhos aos seus olhos de menina, desaparecessem durante a noite.

Ninguém entendia completamente.

Ela mesma não entendia.

Às vezes acordava assustada e caminhava pela casa em silêncio apenas para ouvir a respiração das pessoas dormindo. Era uma forma de conferir se o mundo continuava no lugar.

Os anos passaram.

Sofia cresceu, estudou, trabalhou, apaixonou-se. Mas os medos cresceram junto com ela.

Aprendeu a escondê-los sob sorrisos educados e uma aparente independência. Tornou-se aquela mulher que resolvia problemas, organizava a vida de todos, cuidava dos amigos, dos filhos e dos pais. Quem a observava de fora via força.

Por dentro, porém, ela vivia agarrada ao cabo do medo.

Era como se estivesse num barco atravessando um mar agitado. O medo era o cabo grosso preso à embarcação. Sofia acreditava que, se o soltasse, seria lançada para longe de tudo o que amava.

Por isso controlava.

Telefonava mais do que precisava.

Preocupava-se mais do que admitia.

Imaginava acidentes, doenças e tragédias com uma facilidade impressionante.

E sofria antecipadamente por dores que ainda não existiam.

Até que um dia aconteceu.

A perda que ela tanto temera durante a vida inteira finalmente chegou.

Não veio como nos filmes, com música triste ou avisos prévios. Chegou numa manhã comum, dessas que começam como qualquer outra.

E mudou tudo.

Nos primeiros meses, Sofia acreditou que morreria junto. Sentia-se traída por todos os seus cuidados. Afinal, passara décadas tentando impedir exatamente aquilo.

Mas a vida não negocia com o medo.

Não pergunta quanto tempo alguém se preparou.

Não aceita subornos.

Ela apenas segue.

Com o tempo, as coisas voltaram a acontecer. O café esfriava sobre a mesa. As contas venciam. As estações trocavam de lugar nas árvores. Pessoas chegavam, pessoas iam embora, crianças cresciam, fotografias amarelavam dentro das gavetas.

Sofia continuava sentindo falta.

Continuava sentindo medo.

Mas começou a notar que a dor ocupava apenas parte dos dias. Havia pequenas frestas. Um almoço em família. Uma conversa inesperada. Um fim de tarde bonito. Uma música que surgia no rádio sem pedir licença.

E foi nessas frestas que ela percebeu que a vida jamais havia parado de caminhar ao seu lado.

Numa manhã de primavera, enquanto observava o movimento das árvores numa praça, Sofia compreendeu algo que nunca havia conseguido enxergar.

Amar alguém não é protegê-lo da partida.

É acompanhá-lo enquanto está presente.

O resto não pertence a ninguém.

Naquele dia ela não venceu o medo.

Não existe vitória definitiva sobre certos medos.

Mas afrouxou os dedos.

O cabo continuava ali.

Só já não precisava segurá-lo com tanta força.

As perdas continuariam existindo.

A saudade também.

Mas entre uma despedida e outra havia uma vida inteira esperando para ser vivida.

E Sofia seguiu caminhando, levando consigo o amor de quem partiu, sem a obrigação de prever todas as tempestades.

Porque descobriu que o medo pode até nos acompanhar pela estrada, mas não precisa permanecer com as mãos no volante.

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

 

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