Sentimentos Que Se Entrelaçam


Naquela rua onde as árvores pareciam inclinar os galhos umas em direção às outras, como quem compartilha segredos antigos, viviam pessoas que desconheciam o quanto habitavam a vida umas das outras.

Dona Celina acordava cedo todos os dias. Regava as flores da varanda, varria a calçada e observava o movimento da rua despertar lentamente. Guardava dentro de si uma espera antiga. Não esperava alguém. Esperava sentir novamente que ainda ocupava um lugar na lembrança de alguém.

Do outro lado da rua, Augusto passava as manhãs sentado em um banco da praça. Levava um livro debaixo do braço, mas raramente lia uma página inteira. Preferia observar as pessoas. Via rostos, gestos, silêncios, e imaginava as histórias que cada um carregava. Talvez porque a sua própria história ainda tivesse capítulos que ele não conseguia compreender.

Mais adiante, Ana caminhava todos os dias para o trabalho. Cumprimentava os vizinhos, sorria para os conhecidos e nunca chegava atrasada. Havia, porém, uma tristeza discreta morando atrás dos seus olhos. Dessas que não fazem barulho, mas ocupam espaço.

Numa tarde de chuva fina, o vento derrubou alguns vasos da varanda de Dona Celina.

Ana passava pela rua naquele instante.

Sem pensar duas vezes, aproximou-se para ajudar.

Juntas recolheram a terra espalhada, ajeitaram as plantas e protegeram o que ainda podia ser salvo da chuva.

A conversa foi breve.

— Obrigada, minha filha.

— Não precisa agradecer.

Mas precisava.

Nem sempre a gratidão nasce do tamanho do gesto. Às vezes nasce do momento em que ele acontece.

Naquela noite, Dona Celina preparou o jantar como fazia todos os dias. A diferença é que não se sentou à mesa acompanhada apenas dos próprios pensamentos. Sentou-se com a delicadeza que Clara havia deixado na varanda, com as palavras trocadas entre os vasos quebrados e com a sensação reconfortante de ter sido vista.

Dias depois, Ana atravessava a praça quando Augusto percebeu que seus olhos pareciam mais cansados que de costume.

Ele não perguntou nada.

Apenas afastou alguns livros do banco e fez um gesto simples convidando-a a sentar.

Ficaram ali por alguns minutos.

Sem perguntas.

Sem explicações.

Sem a obrigação de parecerem fortes.

Quando Ana se levantou para seguir seu caminho, carregava menos peso do que quando havia chegado.

Augusto permaneceu observando as folhas que o vento espalhava pela praça. E sentiu que aquele silêncio compartilhado havia preenchido um espaço que ele próprio não sabia denominar.

Sem perceber, cada um carregava algo do outro.

A gentileza de Ana permanecia na memória de Dona Celina.

A serenidade de Augusto acompanhava Ana nos dias mais difíceis.

A gratidão silenciosa de Dona Celina fazia Augusto olhar para as pessoas com um pouco mais de atenção.

Era como se existissem fios invisíveis ligando histórias que jamais haviam sido planejadas para se encontrar.

Enquanto isso, a vida seguia.

Lucas corria atrás de uma bola na rua.

Uma mulher observava o movimento da cidade através da janela.

Um casal caminhava lado a lado sem trocar palavras.

O carteiro distribuía correspondências.

Um cachorro dormia sob a sombra de um jacarandá.

Cada um levava consigo uma coleção particular de lembranças, medos, alegrias, perdas e esperanças.

E cada um deixava marcas por onde passava.

Algumas profundas.

Outras quase imperceptíveis.

Mas marcas, ainda assim.

Os sentimentos circulavam entre as pessoas como a água que corre sob a terra. Nem sempre podiam ser vistos, mas estavam ali.

A coragem de alguém fortalecia outro coração.

A dor despertava compaixão.

A generosidade encontrava abrigo em quem a recebia.

E o afeto, quando verdadeiro, continuava existindo muito depois de terminado o encontro que lhe deu origem.

Naquela rua comum, enquanto as luzes começavam a surgir atrás das cortinas e o dia se recolhia devagar, dezenas de histórias continuavam seu caminho.

Algumas caminhavam lado a lado.

Outras apenas se cruzavam por um instante.

Havia encontros que duravam anos.

Havia encontros que cabiam em poucos minutos.

Nenhum deles saía da vida exatamente do mesmo modo como havia entrado.

E, naquela noite, entre janelas iluminadas, passos tardios e pensamentos que viajavam para longe, os sentimentos continuavam seu trabalho silencioso.

Entrelaçando vidas.
Entrelaçando memórias.
Entrelaçando pessoas que talvez nunca compreendessem o quanto pertenciam umas às outras.

Silvia Marchiori Buss

 

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