Quando Tudo Se Torna Verdade

Houve um tempo em que Manoela acreditava que a vida acontecia primeiro na imaginação.

Quando menina, inventava histórias para tudo. Dava nomes às nuvens, conversava com árvores e tinha certeza de que algumas estrelas escolhiam pessoas para acompanhar. Não porque alguém lhe tivesse contado isso, mas porque certas fantasias pareciam mais verdadeiras do que o mundo que enxergava.

Com o passar dos anos, disseram-lhe que crescesse.

E crescer, descobriu, significava abandonar algumas certezas invisíveis.

As árvores voltaram a ser árvores.

As estrelas viraram corpos celestes.

As nuvens passaram a ser apenas nuvens.

Ou assim lhe ensinaram.

A vida seguiu seu caminho. Vieram os amores, os desencontros, as contas para pagar, os compromissos, as alegrias pequenas e as dores que ninguém vê quando passa por nós na rua.

Manoela aprendeu a viver entre verdades.

A verdade do relógio.

A verdade dos documentos.

A verdade dos exames médicos.

A verdade dos adeuses.

Mas havia noites em que, sem saber por que, sentia falta das fantasias.

Sentava-se diante da janela e olhava o céu como quem procura alguma coisa perdida.

Não sabia exatamente o quê.

Talvez uma versão antiga de si mesma.

Talvez uma resposta.

Talvez apenas um motivo para acreditar que o mundo fosse maior do que parecia.

Foi numa dessas noites que começou a perceber algo curioso.

As fantasias nunca tinham ido embora.

Apenas haviam mudado de roupa.

O amor, por exemplo.

Quando era menina, imaginava que ele chegaria montado em promessas eternas.

Mais tarde descobriu que o amor verdadeiro, muitas vezes, chega cansado, trazendo sacolas do mercado e preocupações escondidas nos bolsos.

A amizade também.

Nas histórias que inventava, amigos eram heróis capazes de enfrentar dragões.

Na vida real, eram pessoas que apareciam com um café quente quando ela não conseguia encontrar palavras.

E os sonhos?

Ah, os sonhos.

Ela acreditava que seriam castelos.

Mas acabaram sendo pequenas luzes acesas em dias escuros.

Então Manoela compreendeu uma coisa que ninguém lhe havia explicado.

As fantasias não eram mentiras.

E as verdades não eram tão sólidas quanto pareciam.

As fantasias eram sementes.

As verdades eram as flores que surgiam depois.

Uma continha a outra.

Como se o invisível passasse anos preparando o caminho para o visível.

Numa tarde qualquer, observando crianças brincarem numa praça, percebeu que ainda carregava dentro de si aquela menina que conversava com estrelas.

Ela não desaparecera.

Apenas aprendera a caminhar ao lado da mulher adulta.

Foi então que  Manoela não tentou escolher entre fantasia e verdade.

Permitiu que ambas se sentassem à mesma mesa.

Porque algumas verdades nascem daquilo que um dia ousamos imaginar.

E algumas fantasias sobrevivem justamente porque carregam um pedaço da verdade que ainda não aconteceu.

Naquela noite, ao fechar a janela, viu uma estrela brilhando sozinha no horizonte.

Sorriu.

Talvez fosse apenas uma estrela.

Talvez estivesse ali desde sempre.

Ou talvez estivesse esperando que alguém voltasse a olhar para ela.

Manoela não procurou resposta.

Nem tudo precisa ser explicado.

Há perguntas que continuam iluminando o caminho justamente porque permanecem abertas, caminhando conosco entre aquilo que sonhamos e aquilo que chamamos de realidade.

Silvia Marchiori Buss

 

 

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