" O Que a Vida Fez de Nossa Vida"...

 Havia uma pergunta que Clarice carregava sem nunca dizer inteira.

Ela aparecia enquanto dobrava roupas ainda mornas do varal, enquanto esperava a água ferver, enquanto apagava as luzes da casa antes de dormir. Não vinha como desespero. Nem como revolta. Era pior. Vinha mansa.

O que a vida fez da nossa vida?

Porque um dia existira uma vida que parecia ter sido escolhida pelos dois.

Ela e Augusto haviam começado pequenos. Pequenos de dinheiro, pequenos de certezas, pequenos até de móveis. O primeiro sofá afundava no meio. A geladeira fazia um barulho de motor cansado. Chovia dentro da lavanderia. E ainda assim, naquela época, tudo parecia maior do que o mundo.

Eles falavam sobre cidades onde nunca estiveram.
Sobre livros que fingiam entender.
Sobre filhos que talvez viessem.
Sobre envelhecer juntos sem virar aquelas pessoas silenciosas nos restaurantes.

E então a vida aconteceu.

Não de uma vez. A vida nunca destrói de uma vez.

Ela vai apertando.

Uma conta.
Depois uma doença na família.
Depois o emprego que exige mais horas.
Depois um cansaço que ninguém comenta.
Depois a morte de alguém.
Depois o filho que nasce.
Depois o filho que cresce.
Depois a pressa.
Depois o hábito.
Depois os dias iguais.

Até que, sem perceber, os dois passaram a morar dentro da manutenção da própria existência.

Já não conversavam sobre cidades.
Conversavam sobre o valor do seguro.
Sobre exames.
Sobre vazamentos.
Sobre qual lâmpada precisava ser trocada.

E havia amor.
Clarice sabia disso.

Mas o amor também envelhece de modos estranhos.

Às vezes ele vira cuidado.
Às vezes vira rotina.
Às vezes vira silêncio compartilhado.
Às vezes vira apenas alguém que sabe exatamente onde você deixa os óculos.

Numa terça-feira de chuva fina, Augusto saiu cedo para comprar pão.

Demorou.

Clarice estranhou, mas não ligou imediatamente. Ele costumava parar para olhar vitrines antigas, conversar com desconhecidos, observar cães alheios como quem reconhece velhos amigos.

Quando a campainha tocou, quase uma hora depois, ela abriu a porta pronta para reclamar.

Mas não era Augusto sozinho.

Ao lado dele havia uma mulher muito velha, de cabelos totalmente brancos, usando um casaco azul-marinho gasto nos cotovelos.

Augusto estava sorrindo.

Um sorriso diferente.
Um sorriso que Clarice não via nele havia anos.

— Encontrei ela sentada na praça — disse ele. — Achei que fosse cair de frio.

A velha entrou devagar, olhando tudo como quem visita uma memória.

Sentou-se à mesa.
Aceitou chá.
Segurou a xícara com as duas mãos trêmulas.

E então perguntou:

— Há quanto tempo vocês vivem aqui?

Clarice respondeu:
— Trinta e sete anos.

A mulher balançou a cabeça, como se estivesse fazendo contas invisíveis.

Depois olhou em volta outra vez.

— Então a casa venceu.

Clarice franziu a testa.
— Como assim?

A velha sorriu sem mostrar os dentes.

— Toda casa tenta engolir a vida de quem mora nela. Algumas conseguem.

O silêncio ficou parado entre os três.

Lá fora, a chuva continuava escorrendo pelos vidros.

Augusto puxou uma cadeira e sentou diante da desconhecida como um menino ouvindo histórias.

— E como se impede isso? — perguntou.

A mulher demorou a responder.

Muito.

Como se procurasse alguém dentro dela antes de abrir a boca.

— Não se impede totalmente. A vida sempre leva alguma coisa. O problema é quando leva justamente aquilo que fazia vocês se reconhecerem.

Clarice sentiu um desconforto pequeno e profundo, desses que parecem antigos.

A velha terminou o chá.

Depois apontou para a janela da cozinha.

— Vocês ainda olham a chuva?

Clarice quase respondeu automaticamente, mas percebeu que não sabia.

Não lembrava da última vez que haviam simplesmente parado para olhar alguma coisa juntos.

A mulher levantou-se pouco depois.
Recusou dinheiro.
Recusou guarda-chuva.
Disse apenas que precisava continuar andando antes que anoitecesse.

Augusto insistiu em acompanhá-la até a esquina.

Quando voltou, encontrou Clarice parada diante da pia, imóvel.

— O que foi? — perguntou.

Ela demorou.

Então respondeu baixinho:

— Acho que faz anos que a gente não mora mais aqui.

Naquela noite não ligaram a televisão.

Também não tentaram consertar nada com grandes conversas emocionadas, porque a vida real raramente funciona assim.

Sentaram-se no chão da sala por falta de vontade de acender as luzes.

E ficaram escutando a chuva.

Depois de algum tempo, Augusto começou a contar sobre uma cidade da infância onde as ruas alagavam no inverno.
Clarice contou sobre uma professora que queria conhecer o mar.
Ele falou de um filme antigo que nunca terminaram de assistir.
Ela lembrou do primeiro apartamento.
Do sofá torto.
Da goteira.
Da fome absurda que sentiam depois de fazer amor.

E aos poucos algo estranho aconteceu.

Não era felicidade.
Nem juventude recuperada.
Nem milagre.

Era apenas reconhecimento.

Como se duas pessoas, depois de muito tempo perdidas dentro da própria vida, finalmente tivessem voltado a se encontrar no corredor estreito de uma casa que ainda respirava baixinho ao redor delas.

Silvia Marchiori Buss

 

 

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