O Brilho dos Outros
Durante muito tempo, Selminha acreditou que não tinha brilho.
Não dizia isso para
ninguém. Guardava aquela impressão como quem guarda uma fotografia antiga
dentro de um livro. Estava lá, entre as páginas dos dias, aparecendo de vez em
quando.
Via brilho em toda parte.
Na amiga que chegava a uma
festa e logo reunia gente ao redor. Na irmã que parecia saber exatamente o que
fazer da vida. Na vizinha que estudava, viajava, aprendia coisas novas e tinha
sempre uma história interessante para contar.
Selminha admirava essas
pessoas.
E, sem perceber,
colocava-se um degrau abaixo delas.
Afinal, o que tinha para
mostrar?
Levava uma vida comum.
Criou filhos, trabalhou
durante anos, ajudou os pais quando envelheceram, acompanhou amigos em momentos
difíceis, fez bolos para aniversários, cuidou de plantas, acolheu visitas
inesperadas, ofereceu café e escutou desabafos.
Mas aquilo lhe parecia
apenas a vida acontecendo.
Nada que merecesse
destaque.
Nada que pudesse ser
chamado de brilho.
Quando alguém elogiava sua
bondade, ela mudava de assunto.
Quando agradeciam por
alguma ajuda, respondia que não tinha feito mais do que a obrigação.
Quando diziam que era uma
pessoa especial, sentia até um certo constrangimento.
Especial eram os outros.
Ela não.
Numa tarde de chuva,
encontrou uma antiga colega de escola no mercado.
Fazia mais de quarenta anos
que não se viam.
Conversaram entre as bancas
de frutas, lembraram professores, colegas e algumas travessuras da
adolescência.
De repente, a mulher
segurou seu braço.
— Selminha, eu nunca
esqueci de você.
Ela sorriu.
— Nem eu de ti.
— Não estou falando da
escola.
A colega fez uma pausa.
— Quando meu pai morreu, eu
tinha quinze anos. Tu foste a única pessoa que continuou me procurando depois
do enterro. Sentavas comigo no recreio. Caminhavas comigo até em casa. Todo
mundo queria ajudar nos primeiros dias. Tu ficaste durante meses.
Selminha tentou buscar
aquela lembrança.
Encontrou apenas
fragmentos.
Lembrava da tristeza da
amiga.
Lembrava de algumas
conversas.
Mas nunca imaginou que
aquilo tivesse sido tão importante.
— Eu nunca te agradeci por
isso — continuou a mulher. — Mas carreguei tua companhia comigo pela vida
inteira.
Despediram-se com um
abraço.
Selminha terminou as
compras, voltou para casa e guardou as sacolas.
Mas as palavras da amiga
não ficaram no mercado.
Vieram junto.
Nos dias seguintes, a
lembrança apareceu várias vezes.
Veio quando uma vizinha
agradeceu pelas mudas de flores que tinha ganhado.
Veio quando o filho
comentou que aprendera com ela a respeitar as pessoas.
Veio quando a neta contou,
toda orgulhosa, que ajudara uma colega na escola porque ninguém deveria ficar
sozinho quando está triste.
E aquela conversa
continuava reaparecendo.
Selminha começou a pensar
em quantas coisas tinha feito ao longo da vida sem lhes dar importância.
Talvez porque não rendessem
aplausos.
Talvez porque não
aparecessem em fotografias.
Talvez porque algumas
coisas importantes aconteçam de maneira tão simples que quase passam
despercebidas.
Numa noite, sentou-se na
varanda depois do jantar.
A cidade estava iluminada.
As janelas dos prédios
acesas pareciam pequenas estrelas espalhadas pela paisagem.
Ficou observando.
Nenhuma brilhava sozinha.
A luz de uma aparecia
refletida no vidro da outra. Algumas eram mais fortes. Outras mais suaves. Mas
vistas de longe formavam uma única paisagem.
E seus pensamentos
começaram a caminhar por lugares antigos.
Lembrou de pessoas que
admirou ao longo da vida.
Da professora que acreditou
nela quando era menina.
Da amiga que a fez rir em
tempos difíceis.
Das mulheres corajosas que
conheceu.
Dos filhos que lhe
ensinaram mais do que ela ensinou.
Dos amigos que
permaneceram.
Dos amores que a
transformaram.
De tanta gente que, de
alguma forma, havia deixado uma claridade dentro dela.
Então compreendeu uma
coisa.
Passara anos olhando para o
brilho dos outros como se ele fosse uma prova daquilo que lhe faltava.
Como se cada pessoa
carregasse uma luz própria e isolada.
Como se fosse preciso
escolher entre admirar alguém ou reconhecer o próprio valor.
Mas a vida não parecia
funcionar desse jeito.
A coragem de muita gente
havia lhe dado coragem.
A generosidade de outras
pessoas a ensinara a ser generosa.
Palavras recebidas no
momento certo tinham mudado dias inteiros.
Abraços haviam sustentado
períodos difíceis.
Exemplos tinham aberto
caminhos.
O brilho dos outros havia
ajudado a construir o dela.
E talvez o contrário também
fosse verdade.
Talvez aquela colega do
mercado carregasse um pouco da luz que recebera dela na adolescência.
Talvez os filhos guardassem
gestos que aprenderam sem perceber.
Talvez amigos, vizinhos e
familiares levassem consigo pequenas partes de sua presença.
Porque ninguém atravessa a
vida sem deixar marcas.
Selminha continuou olhando
as janelas iluminadas.
E percebeu que ninguém
brilha sozinho.
A luz que existe em cada
pessoa é feita também dos encontros.
Das conversas.
Dos afetos.
Das perdas.
Das mãos estendidas.
Das pessoas que chegam.
Das pessoas que ficam.
E até das que partem
deixando alguma coisa de si.
O brilho dos outros não
diminuía o seu.
Nunca diminuiu.
Era justamente uma parte
dele.
E enquanto observava a
cidade naquela noite comum, compreendeu que talvez fosse isso o que tornava as
pessoas tão bonitas.
Não a luz que cada uma
carregava.
Mas a luz que eram capazes
de acender umas nas outras.
Silvia Marchiori Buss
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