Noite Nervosa
Quando Pedro começou a dormir virado para o lado da parede, Helena entendeu que alguma coisa dentro do casamento havia adoecido antes mesmo de os dois perceberem.
Não aconteceu de uma vez.
Nenhuma relação longa termina numa explosão cinematográfica, como as pessoas
gostam de imaginar. O fim, quase sempre, começa em detalhes pequenos demais
para receber atenção: o café esquecido sobre a mesa, os silêncios depois do
jantar, a falta de assunto no carro, o hábito de responder “hum” sem realmente
escutar.
Helena ainda tentava salvar
certas delicadezas.
Comprava o pão de que ele
gostava aos domingos. Lavava suas camisas separadamente porque sabia que ele
implicava com tecido áspero. Às vezes, observava-o dormindo e procurava naquele
rosto cansado algum vestígio do homem que atravessara cidades apenas para vê-la
por vinte minutos antes de voltar ao trabalho.
Mas havia noites em que
Pedro parecia morar tão longe dela quanto em outro país.
Naquela noite específica, a
chuva batia contra as janelas do apartamento como se alguém atirasse pequenas
pedras de água no vidro. O relógio marcava quase duas da manhã, e Helena
continuava acordada, sentada à mesa da cozinha, usando a luz fraca do exaustor
como companhia.
O apartamento inteiro tinha
aquele ar nervoso das coisas que ainda não quebraram, mas já estão rachadas por
dentro.
Pedro chegara tarde.
Não bêbado.
Não agressivo.
Talvez aquilo fosse pior.
Entrou em casa com uma
educação distante, perguntou se ela havia jantado, comentou qualquer coisa
sobre o trânsito e desapareceu no banho sem sequer notar que Helena estivera
chorando. Ou notara e escolhera não entrar naquele assunto. Depois de tantos anos,
ela já não sabia distinguir desatenção de cansaço.
Quando ele saiu do
banheiro, a fumaça quente invadiu o corredor.
Helena olhou para o marido,
usando apenas uma toalha na cintura, e teve uma sensação estranha: a de
conhecer profundamente cada centímetro daquele homem e, ao mesmo tempo, não
saber mais nada sobre ele.
— Precisamos conversar —
ela disse.
Era uma frase antiga.
Gasta. Quase ridícula de tão usada pelos casais antes do desastre.
Pedro parou por alguns
segundos.
Não perguntou sobre o quê.
Isso doeu mais do que teria
doído uma discussão.
Ele apenas se sentou diante
dela e ficou esperando, com o rosto cansado de quem já imaginava o conteúdo da
própria sentença.
A chuva aumentava lá fora.
Helena percebeu que suas
mãos tremiam.
— Tu ainda me amas?
A pergunta ficou entre os
dois como um copo prestes a cair da beirada da mesa.
Pedro demorou tanto para
responder que ela começou a compreender antes mesmo das palavras.
Passou a mão pelo rosto.
Olhou a cozinha.
A janela.
Qualquer coisa que não
fosse ela.
— Eu não sei mais como amar
ninguém direito ultimamente.
Helena sentiu vontade de
odiá-lo por aquela resposta incompleta. Porque seria mais fácil sobreviver a
uma traição, a um grito, a uma brutalidade concreta. Mas aquilo? Aquela espécie
de esvaziamento lento? Como se combate uma ausência que ainda continua sentando
ao seu lado todos os dias?
Ela se levantou da cadeira
e caminhou até a janela.
A cidade brilhava molhada
lá embaixo, cheia de apartamentos iluminados onde, provavelmente, outras
pessoas também tentavam salvar alguma coisa sem saber exatamente o quê.
— Tem outra mulher? —
perguntou, sem se virar.
— Não.
Ela acreditou.
E isso piorava tudo.
Porque não havia um inimigo
claro.
Não havia um culpado
suficiente.
Apenas duas pessoas
cansadas dentro de uma vida que, durante muito tempo, funcionara.
Pedro aproximou-se devagar.
Helena conseguia sentir o
calor dele atrás de si, aquele mesmo calor que, durante décadas, significara
abrigo.
Agora parecia despedida.
— Eu tenho medo de que a
gente tenha ficado junto por tanto tempo que esqueceu como se alcança — disse
ele, em voz baixa.
Helena fechou os olhos.
Do lado de fora, um trovão
atravessou a madrugada.
E, naquele instante, ela
entendeu que existem noites nervosas não porque algo terrível acontece, mas
porque duas pessoas percebem, quase ao mesmo tempo, que o amor não acabou
exatamente.
Só ficou sentado em algum
lugar da casa aonde nenhum dos dois consegue mais chegar.
Silvia Marchiori Buss
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