Enquanto Você Não Vem

 Desde os cinquenta anos, Helena tinha adquirido um hábito estranho.

Conversava com a morte.

Não em voz alta. Não em cemitérios. Não diante de fotografias antigas. Conversava com ela enquanto dobrava roupas, regava plantas, esperava o café passar ou observava a chuva bater na janela.

— Ainda não — dizia às vezes.

E a morte, em sua imaginação, sentava-se numa cadeira qualquer da cozinha, cruzava as pernas e respondia:

— Não estou com pressa.

Helena gostava daquela resposta.

Não porque desejasse a visita, mas porque lhe dava a sensação de que ainda havia tempo.

Tempo para organizar gavetas.

Não as da casa.

As da vida.

Havia pessoas com quem precisava conversar.

Pessoas que não lhe deviam desculpas, mas explicações.

Pessoas a quem ela própria devia perdão.

Também precisava terminar algumas coisas.

Não livros nem projetos grandiosos.

Precisava terminar silêncios.

Fechar perguntas.

Arrumar lembranças que continuavam espalhadas dentro dela como roupas largadas sobre uma cadeira.

Às vezes caminhava pela cidade e imaginava a morte ao seu lado.

Não vestida de preto.

Nem carregando foice.

Apenas uma senhora discreta, de cabelos grisalhos, que andava devagar e observava vitrines.

— Você acha que ainda dá tempo? — perguntava Helena.

— Tempo para quê?

— Para entender certas coisas.

A morte sorria.

— Ninguém entende tudo.

Essa resposta a incomodava.

Porque Helena havia passado a vida acreditando que, em algum momento, todas as peças se encaixariam.

Que chegaria um dia em que compreenderia por que algumas pessoas partiram.

Por que alguns amores duraram tão pouco.

Por que certos sonhos morreram antes dela.

Mas os anos foram passando e as respostas nunca chegaram completas.

Vieram apenas fragmentos.

Pequenos pedaços de sentido.

Como cartas encontradas sem o envelope.

Numa tarde de outono, enquanto organizava fotografias antigas, encontrou uma imagem de si mesma aos vinte anos.

Ficou olhando.

Aquela moça tinha pressa.

Queria tudo.

Queria acertar.

Queria ser admirada.

Queria evitar erros.

Helena sorriu.

A vida havia lhe dado justamente o contrário.

Erros.

Dúvidas.

Mudanças de rota.

Perdas.

E, estranhamente, era isso que agora a tornava inteira.

— Você sabia? — perguntou à morte.

— O quê?

— Que eu não me tornaria quem planejei?

— Ninguém se torna.

Helena guardou a fotografia. Não sentiu tristeza. Pensava que viver fosse exatamente isso:

 - Abandonar versões de si mesma pelo caminho.

Meses depois, decidiu telefonar para uma irmã com quem não falava havia anos.

A conversa não resolveu tudo.

Mas abriu uma janela.

Escreveu também uma carta para um amor antigo.

Não enviou.

Nem precisava.

Ao terminar de escrever, percebeu que a destinatária da carta era ela mesma.

Foi então que começou a dormir melhor.

A morte continuava aparecendo em seus pensamentos.

Sempre educada.

Sempre paciente.

Como alguém aguardando a sua vez numa fila.

— Está vendo? — dizia Helena. — Estou arrumando tudo.

— Não precisa arrumar tudo.

— Preciso, sim.

— Não. Só o suficiente para conseguir partir sem carregar peso demais.

Essa frase ficou dentro dela durante semanas.

Peso demais.

Era exatamente isso.

Não eram os anos que cansavam.

Eram os pesos.

As culpas guardadas.

As palavras engolidas.

As expectativas impossíveis.

Os "e se" empilhados como caixas num sótão.

Então começou a se desfazer deles.

Um de cada vez.

Sem pressa.

Sem cerimônia.

Como quem abre as janelas de uma casa antiga.

Numa manhã de primavera, sentada na varanda, observando uma roseira florescer, Helena voltou a falar com sua visitante imaginária.

— E quando você vier?

A morte pareceu pensar antes de responder.

— Quando eu vier, você nem vai precisar me procurar.

— Vou estar pronta?

A velha senhora sorriu.

— Ninguém está completamente pronto.

Helena riu.

Era uma resposta tipicamente dela.

Olhou o céu.

Depois as flores.

Depois as próprias mãos.

Havia rugas novas.

Também havia paz.

Uma paz imperfeita, mas verdadeira.

Então se levantou.

Ainda existiam cartas para escrever.

Netos para abraçar.

Livros para ler.

Pôr do sol para assistir.

Risadas para colecionar.

E enquanto a morte não vinha, havia uma vida inteira acontecendo.

E Helena decidiu não desperdiçar mais nenhum pedaço dela.

Silvia Marchiori Buss

 

 

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