Deixa Eu Te Abraçar de Novo
— Deixa eu te abraçar de novo...
Ela pedia baixinho, como
quem teme que a própria voz espante o milagre.
— Não te afasta... não me
deixa...
E ele sorria.
Os braços dele tinham o
cheiro das manhãs tranquilas, dos cafés demorados, das estradas percorridas sem
pressa. Quando a envolvia, o mundo parecia caber naquele espaço exato entre um
coração e outro.
Viveram anos.
Ou talvez dias.
Ou talvez apenas o tempo
que os sonhos permitem.
Viajaram. Riram de coisas
sem importância. Discutiram sobre bobagens e fizeram as pazes antes que a noite
terminasse. Envelheceram um pouco. Depois rejuvenesceram nas fotografias
imaginárias que nunca foram tiradas.
Ela conheceu cada curva do
rosto dele.
Aprendeu o som dos seus
passos no corredor.
Sabia quando ele estava
feliz apenas pelo jeito como colocava as chaves sobre a mesa.
Às vezes acordava dentro
daquele sonho e encontrava-o olhando pela janela.
— O que foi? — perguntava.
— Nada. Estou guardando
este momento.
E ela acreditava que os
momentos podiam ser guardados para sempre.
As estações passavam.
Primaveras inteiras
floresciam em jardins que não existiam.
Neves caíam sobre cidades
que jamais foram construídas.
O tempo seguia sua marcha
silenciosa, e eles continuavam ali, atravessando a vida de mãos dadas.
Até que um dia ele começou
a ficar distante.
Primeiro foi um olhar.
Depois um silêncio.
Depois uma ausência difícil
de explicar.
Ela o procurava pelos
cômodos daquele mundo sonhado.
— Onde você está?
Nenhuma resposta.
Correu pelas ruas.
Pelas praças.
Pelos lugares onde haviam
sido felizes.
E encontrou apenas ecos.
Então começou a pedir.
— Deixa eu te abraçar de
novo...
A voz saiu quebrada.
— Não te afasta...
Ele estava ali e não
estava.
Como uma fotografia
esquecendo suas próprias cores.
— Não me deixa...
Mas os contornos dele se
desfaziam lentamente, como névoa iluminada pelo sol da manhã.
Ela tentou segurá-lo.
Tentou lembrar cada
detalhe.
Tentou impedir a despedida.
Mas sonhos conhecem
caminhos que o amor não consegue controlar.
E ele partiu.
Sem malas.
Sem palavras.
Sem ruído.
Partiu da mesma forma como
havia chegado.
Ela ficou sozinha naquele
mundo que, de repente, parecia enorme demais.
Sentou-se à beira de um
lago inventado.
Esperou.
Talvez horas.
Talvez anos.
Até que abriu os olhos.
O quarto estava escuro.
Silencioso.
Real.
Nenhuma viagem.
Nenhuma fotografia.
Nenhuma estrada.
Nenhuma vida construída.
Apenas o coração acelerado
e a sensação absurda de ter perdido alguém que nunca estivera ali.
Passou a mão pelo rosto.
Respirou fundo.
Tentou entender.
Nada daquilo havia
acontecido.
Nenhum abraço.
Nenhum café.
Nenhuma primavera.
Nenhuma despedida.
E, no entanto, as lágrimas
desciam como se tudo tivesse sido verdade.
Porque, de algum modo
misterioso, tinha sido.
Não na vida.
Não no calendário.
Não nos registros do mundo.
Mas naquele território
invisível onde os sonhos moram.
Ela não havia vivido nada.
E, ao mesmo tempo, havia
vivido tudo.
Amara.
Rira.
Esperara.
Perdera.
Sentira saudade.
Tudo dentro de uma única
noite.
Ficou sentada na cama
enquanto a madrugada clareava devagar.
Então fechou os olhos por
um instante e sorriu uma tristeza mansa.
Algumas histórias não
precisem acontecer para deixarem marcas.
Talvez existam amores que
pertencem apenas aos sonhos.
E talvez, em algum lugar
entre o que nunca existiu e o que jamais será esquecido, ele ainda estivesse
esperando que ela voltasse a dormir.
Para que pudesse, mais uma
vez, ouvi-la sussurrar:
— Deixa eu te abraçar de
novo...
Silvia Marchiori Buss
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