Até Quando..
Às 22h15, Agnes morreu.
Pelo menos era o que dizia
o papel amarelado que segurava entre os dedos. Seu nome completo estava ali. O
número do registro também. E, logo abaixo, numa letra firme e inquestionável:
Hora da morte: 22h15.
Ela leu uma vez.
Leu outra.
Depois uma terceira.
Mas não se sentia morta.
Passou a mão pelo próprio
rosto. Sentiu a pele. Tocou os cabelos. Ouviu o som da própria respiração.
Se estava morta, por que
ainda sentia o peso do corpo?
E se ainda sentia o corpo,
por que alguém havia decretado sua morte?
Ao levantar os olhos,
percebeu que não estava sozinha.
Havia uma discussão.
Uma discussão antiga,
feroz, quase cansada.
De um lado, vozes
afirmavam:
— Ela merece o céu.
Do outro:
— Não. Ela merece o
inferno.
Agnes olhou em volta
procurando quem falava. Não viu rostos. Apenas presenças.
— Posso saber do que estão
falando? — perguntou.
Ninguém respondeu
diretamente.
Em vez disso, começaram a
surgir cenas.
Uma após outra.
Como páginas arrancadas de
um álbum.
Ela viu o dia em que
acolheu uma vizinha recém viúva quando ninguém mais teve coragem de atravessar
aquela porta.
Viu também a ocasião em que
mentiu para evitar uma verdade dolorosa.
Viu o abraço que ofereceu
ao filho.
E a palavra cruel que, anos
antes, lançara contra a irmã durante uma briga.
Viu generosidade.
Viu egoísmo.
Viu coragem.
Viu covardia.
Cada lembrança era
apresentada como prova.
As vozes do céu
colecionavam seus gestos luminosos.
As vozes do inferno exibiam
suas sombras.
Agnes observava tudo em
silêncio.
Pela primeira vez — ou
talvez pela última — percebeu que nenhuma vida é feita apenas de luz ou apenas
de escuridão.
Carregava ambas.
Como todo mundo.
A discussão durou o que
pareceu uma eternidade.
Ou talvez apenas alguns
segundos.
Até que alguém declarou:
— Empate.
As vozes se calaram.
Outra presença falou:
— Ainda não sabemos o que
fazer com você.
— Então para onde eu vou? —
perguntou Agnes.
— De volta.
— Para a Terra?
— Não exatamente.
O lugar mudou.
Num instante, tudo
desapareceu.
No seguinte, ela estava
caminhando por uma feira de frutas.
A feira da cidade onde
nascera.
O cheiro de laranjas.
As caixas de madeira.
O pregão dos vendedores.
O sol atravessando os
toldos coloridos.
Tudo exatamente como
lembrava.
E, no entanto, diferente.
As pessoas passavam por ela
sem notá-la.
Os rostos pareciam
conhecidos.
Alguns pertenciam aos
vivos.
Outros, ela tinha certeza,
já haviam partido.
Era como se todos
coexistissem ali.
Misturados.
Sem fronteiras.
Sem explicações.
Agnes respirou fundo.
Sentiu o perfume das
bergamotas.
Escutou uma criança rir.
Observou uma senhora
escolher maçãs com a mesma concentração de quem escolhe um destino.
Então compreendeu que,
talvez o purgatório não fosse um lugar
de castigo.
Talvez fosse uma sala de
espera feita de memórias.
Talvez fosse a oportunidade
de olhar a própria vida até entendê-la.
Ou até perdoá-la.
Ou até perdoar-se.
Seguiu caminhando entre as
bancas.
Passou pela padaria onde
comprava doces na infância.
Pela praça onde deu o
primeiro beijo.
Pela esquina onde chorou a
morte da mãe.
Tudo estava ali.
Tudo continuava
acontecendo.
Como se o tempo tivesse
desistido de andar em linha reta.
Agnes olhou para o céu.
Ou para aquilo que parecia
ser o céu.
Sorriu sem muita certeza.
E pensou:
— Até quando?
Mas ninguém respondeu.
Talvez porque a resposta
ainda estivesse sendo escrita.
Talvez porque o céu e o
inferno fossem apenas nomes diferentes para a mesma pergunta.
Ou talvez porque algumas
almas precisem caminhar mais um pouco antes de descobrir que nunca estiveram
procurando um lugar.
Estiveram procurando entendimento.
Silvia Marchiori Buss
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