Ainda Havia Ela

Nada pior poderia ter acontecido na vida de Jussara.

Pelo menos era o que ela pensava enquanto permanecia sentada no sofá, usando a mesma roupa do dia anterior, olhando para uma televisão desligada.

Tudo começou numa terça-feira qualquer.

Depois de quinze anos na mesma empresa, foi chamada ao setor de recursos humanos. Recebeu um sorriso sem emoção, um envelope e um "não foi uma decisão fácil". Em menos de dez minutos, estava na rua carregando uma caixa com uma caneca, algumas fotografias e uma pequena planta que insistia em sobreviver.

Passou os dias seguintes enviando currículos e fingindo tranquilidade.

— Vai dar tudo certo — repetia para os amigos.

Mas não acreditava.

Então veio a segunda queda.

Numa noite em que o namorado deixou o celular sobre a mesa enquanto tomava banho, uma mensagem apareceu. Depois outra. E mais uma.

Jussara não era de invadir a privacidade de ninguém. Nunca tinha sido.

Mas havia frases que não deixavam espaço para dúvidas.

Ela descobriu que o homem com quem planejava envelhecer já estava ensaiando uma nova história com outra pessoa.

Quando ele saiu do banheiro, encontrou Jussara sentada na cama.

Nem houve discussão.

Algumas verdades chegam tão completas que dispensam explicações.

Ele saiu duas semanas depois.

Levou roupas, livros, um violão que nunca aprendera a tocar e metade dos planos que tinham construído juntos.

Nos meses seguintes, Jussara passou a dormir mal.

Comia sem fome.

Comia para preencher silêncios.

Comia para ocupar as mãos.

Comia porque não sabia o que fazer com a tristeza.

Quando percebeu, as roupas não serviam mais.

O espelho passou a ser evitado.

Ela deixava as cortinas fechadas.

Parou de aceitar convites.

Parou de atender algumas ligações.

Parou até de se perguntar quando voltaria a ser feliz.

Havia dias em que escovar os dentes parecia um projeto ambicioso demais.

Numa manhã chuvosa, recebeu uma mensagem da amiga Marietinha.

"Vou passar aí."

Jussara respondeu:

"Não precisa."

Marietinha apareceu mesmo assim.

Entrou sem cerimônia, abriu as cortinas e colocou água para ferver.

Não perguntou como ela estava.

A pergunta era desnecessária.

Preparou café.

Sentou-se ao lado dela.

Ficaram quase uma hora em silêncio.

Quando foi embora, deixou apenas uma frase.

— Às vezes a vida desmorona inteira antes de decidir qual casa quer construir.

Jussara não respondeu.

Achou aquilo bonito demais para ser verdade.

Mas a frase ficou.

Dias depois, ela caminhou até a padaria da esquina.

Na semana seguinte, caminhou duas quadras.

Depois quatro.

Não porque tivesse recuperado a esperança.

Mas porque estava cansada de permanecer parada.

A esperança, descobriu, nem sempre chega primeiro.

Às vezes ela vem atrás da caminhada.

Os meses continuaram difíceis.

Os boletos continuaram chegando.

As entrevistas não davam resultado.

O coração continuava machucado.

O peso continuava ali.

Nada desapareceu como num passe de mágica.

Mas algo mudou.

Jussara começou a perceber que sua vida não era apenas a soma das perdas.

Ainda havia livros.

Ainda havia manhãs.

Ainda havia amigas.

Ainda havia café quente.

Ainda havia risadas inesperadas.

Ainda havia ela.

Um ano depois, conseguiu um novo emprego.

Não era melhor.

Não era pior.

Era apenas um recomeço.

Numa tarde comum, enquanto organizava documentos na mesa do escritório, viu seu reflexo na janela.

Os cabelos tinham alguns fios brancos a mais.

O corpo não era o mesmo.

O rosto carregava marcas que antes não existiam.

Mas havia algo diferente naquele olhar.

Ela não estava esperando que a vida devolvesse o que lhe havia tirado.

Estava aprendendo a seguir com o que tinha restado.

E, curiosamente, o que restara era suficiente para continuar.

Não para esquecer.

Não para vencer.

Nem para provar nada a ninguém.

Apenas para viver.

Naquela noite, Jussara não fechou as cortinas.

Ficou olhando as luzes espalhadas pela rua até que o sono chegasse.

Em algum lugar, alguém voltava para casa.

Em outro, alguém estava partindo.

A vida seguia ocupada com seus próprios assuntos.

Jussara apagou a luz do quarto.

E, antes de adormecer, teve a impressão de que havia espaço para ela naquele mundo outra vez.

Silvia Marchiori Buss

 

 

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