A Vida Depois do Horário Comercial


Quando era jovem, Augusto acreditava que a vida adulta começava em algum lugar muito específico.

Talvez no primeiro salário. Talvez na compra da casa própria. Talvez no dia em que alguém o chamasse de senhor sem hesitar.

Mas os anos foram passando e nenhuma dessas coisas aconteceu exatamente como ele imaginava.

Recebeu o primeiro salário e continuou se sentindo o mesmo rapaz que esquecia onde havia deixado as chaves.

Comprou uma casa e descobriu que telhados envelhecem, canos estouram e paredes criam rachaduras tão naturalmente quanto as pessoas criam rugas.

Passou a ser chamado de senhor e, por dentro, continuava se surpreendendo ao se ver refletido nos espelhos.

A verdade é que ninguém lhe contou que a vida adulta não chega de uma vez.

Ela vai ocupando espaço aos poucos.

Primeiro uma conta para pagar.

Depois uma decisão que ninguém pode tomar por você.

Mais tarde, a descoberta de que existem perguntas sem respostas e que, mesmo assim, a manhã seguinte continua chegando.

Augusto observava os jovens correndo pelas ruas com a urgência de quem acredita que tudo precisa acontecer logo.

Lembrava-se de quando também tinha pressa.

Pressa para crescer.

Pressa para conquistar.

Pressa para chegar.

Agora, quando olhava para trás, tinha dificuldade para identificar exatamente quando deixara de ser jovem. Não houve uma data. Não houve uma cerimônia. Apenas uma sucessão de dias comuns.

Boa parte da vida parecia ser feita disso.

A conversa inesperada numa fila.

O café tomado sozinho numa manhã qualquer.

A planta que finalmente floresce depois de meses parecendo imóvel.

As pequenas alegrias que não aparecem em fotografias nem rendem histórias grandiosas.

Num fim de tarde, sentado num banco de praça, ele viu uma criança aprender a andar de bicicleta.

Primeiro o medo.

Depois o desequilíbrio.

Por fim, alguns metros percorridos sem ajuda.

A menina ergueu os braços como se tivesse conquistado um continente.

Augusto sorriu.

A menina seguiu pedalando pela praça, ora firme, ora balançando o guidão diante das pequenas irregularidades do caminho.

Augusto continuou sentado.

O vento espalhava folhas secas perto dos seus pés. Um cachorro atravessou correndo atrás de uma bola. Duas mulheres passavam conversando sobre assuntos que pareciam urgentes apenas para elas.

A menina desapareceu atrás das árvores e logo sua ausência foi ocupada por outras cenas.

Era assim com quase tudo.

As preocupações que um dia pareciam enormes acabavam cedendo espaço para outras. Certos planos saíam do papel. Outros permaneciam guardados em gavetas. Algumas perguntas envelheciam sem resposta e, curiosamente, isso deixava de incomodar tanto.

Augusto olhou o relógio.

Ainda tinha algumas compras para fazer antes de voltar para casa.

Levantou-se do banco e seguiu caminhando.

Na esquina, um rapaz falava ao telefone enquanto equilibrava uma sacola de supermercado. Uma senhora carregava flores. Um entregador passava apressado numa bicicleta. Do outro lado da rua, alguém fechava as portas de uma loja.

A cidade seguia seu ritmo habitual.

Gente chegando.

Gente saindo.

Gente esperando.

Gente desistindo.

Gente começando alguma coisa sem saber exatamente onde aquilo iria dar.

Augusto atravessou a rua quando o sinal abriu para os pedestres.

Ainda precisava comprar pão.

Talvez passasse na banca para ver as manchetes do dia.

Talvez encontrasse algum conhecido pelo caminho.

Ou talvez não.

A noite começava a acender suas primeiras luzes sobre a cidade.

E havia, adiante, mais uma esquina.

Silvia Marchiori Buss

 

 

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