A Cor dos Dias Comuns

 Dona Celina nunca tinha atravessado oceanos, escalado montanhas ou vivido grandes aventuras. Aos setenta e três anos, sua vida cabia em uma casa simples de esquina, duas roseiras na frente e uma rotina que se repetia há tanto tempo que os dias pareciam feitos da mesma matéria.

Acordava às seis. Colocava água para o café. Abria a janela da cozinha. Cumprimentava o sol quando ele aparecia e a chuva quando era ela quem chegava primeiro.

Depois, alimentava os passarinhos.

Era uma vida tão comum que ninguém escreveria um livro sobre ela.

Ou pelo menos era o que Celina pensava.

Naquela manhã de terça-feira, enquanto organizava uma gaveta, encontrou uma fotografia antiga. Estava amarelada pelo tempo.

Na imagem, ela aparecia ao lado do marido, Augusto, diante da primeira casa que haviam comprado.

A casa era pequena. Os dois eram jovens. E sorriam como quem acreditava que o mundo inteiro cabia dentro de um abraço.

Celina sentou-se à mesa e ficou olhando para a foto.

Augusto havia partido havia oito anos.

Ainda assim, às vezes ela se surpreendia pensando em algo para lhe contar.

Uma notícia do jornal.

Uma flor que nascera fora de época.

Uma receita que dera errado.

Como se ele estivesse apenas no cômodo ao lado.

Passou os dedos sobre a imagem e sorriu.

Não de tristeza.

Daquela saudade que já aprendera a caminhar sem machucar tanto.

Naquele instante, percebeu uma coisa curiosa.

Nenhum dos momentos mais importantes de sua vida acontecera nos dias extraordinários.

Não fora o casamento.

Nem o nascimento dos filhos.

Nem as viagens.

O que realmente morava em sua memória eram os dias comuns.

As noites em que Augusto chegava cansado e os dois dividiam uma laranja antes de dormir.

As manhãs em que os filhos corriam pela casa procurando meias perdidas.

As tardes em que a chuva obrigava todos a permanecerem juntos na sala.

Os almoços sem motivo.

Os cafés sem visita.

As conversas sem importância.

Era disso que a felicidade tinha sido feita.

Não dos fogos de artifício.

Mas das pequenas luzes.

Celina levantou-se devagar.

Foi até a cozinha.

Preparou café.

Colocou uma segunda xícara sobre a mesa.

Fazia isso de vez em quando.

Não porque acreditasse que Augusto voltaria.

Mas porque algumas ausências merecem continuar tendo lugar.

Sentou-se diante da janela.

Na calçada, uma menina passava de bicicleta.

O carteiro caminhava lentamente.

Uma mulher carregava sacolas de mercado.

Nada extraordinário.

Nada digno de manchete.

E, no entanto, havia beleza em tudo aquilo.

Uma beleza silenciosa.

Discreta.

Quase invisível para quem tinha pressa.

Celina pensou que talvez a vida fosse exatamente isso.

Um grande mosaico montado com peças tão pequenas que, vistas de perto, pareciam insignificantes.

Mas, quando observadas de longe, formavam uma obra inteira.

Ao final da tarde, saiu para molhar as roseiras.

Uma vizinha acenou.

Ela acenou de volta.

Um menino pediu a bola que caíra em seu jardim.

Ela devolveu.

O céu começou a adquirir tons dourados.

E Celina teve a sensação de que os dias possuíam cores.

Não as cores que vemos com os olhos.

Mas as que sentimos.

Alguns dias eram azuis de esperança.

Outros, cinzentos de preocupação.

Havia os amarelos de alegria simples.

Os vermelhos das paixões.

Os brancos dos recomeços.

E existiam aqueles dias aparentemente sem cor.

Os dias comuns.

Mas agora ela sabia.

Eles não eram incolores.

Eram feitos de todas as cores misturadas.

Como uma aquarela delicada.

Como a soma silenciosa de tudo o que realmente importa.

Quando a noite chegou, Celina fechou as janelas, apagou as luzes da sala e caminhou para o quarto.

Antes de dormir, olhou uma última vez para a fotografia encontrada pela manhã.

Sorriu.

Depois a guardou novamente.

Não porque quisesse esquecer.

Mas porque certas lembranças não precisam ficar à vista para permanecerem vivas.

Deitou-se.

E, enquanto o sono se aproximava, pensou que talvez a felicidade nunca tivesse sido uma montanha a ser conquistada.

Talvez fosse apenas isso.

Um café quente.

Uma fotografia antiga.

Uma roseira florescendo.

Um nome guardado no coração.

E mais um dia comum terminando em paz.

Afinal, são os dias comuns que, um dia, se transformam nas saudades extraordinárias.

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

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