Perfuma, Dor e Saudade

O perfume da saudade não vinha de frascos caros nem de flores raras. Morava em lugares absurdamente pequenos. Num travesseiro esquecido do lado esquerdo da cama. Numa camisa antiga pendurada atrás da porta. Na toalha dobrada do jeito que ele deixava, mesmo depois de tantos meses sem voltar para buscá-la.

Ela descobriu isso numa tarde silenciosa, quando abriu uma gaveta procurando pilhas novas para o controle remoto. Não encontrou as pilhas. Encontrou um lenço. E junto dele veio aquele cheiro impossível de explicar. Nem perfume masculino exatamente. Nem sabonete. Era apenas presença. A lembrança química de alguém que já havia partido, mas que ainda insistia em ocupar o ar da casa.

Sentou-se no chão sem perceber.

A saudade tinha dessas violências delicadas. Não gritava. Não quebrava copos. Não derrubava portas. Apenas atravessava o peito devagar, como água fria entrando por uma rachadura invisível.

Lá fora, as pessoas seguiam vivendo normalmente. Ônibus passavam. Crianças corriam voltando da escola. Alguém ria na sacada do prédio em frente. O mundo tinha a deselegância de continuar funcionando enquanto certas pessoas aprendiam a sobreviver em ruínas.

Ela aproximou o lenço do rosto mais uma vez, quase com culpa. Como quem visita um lugar proibido.

Havia dores que o tempo não curava; apenas ensinava a esconder melhor. Ela mesma já conseguia conversar sem chorar, já respondia “estou bem” com uma naturalidade assustadora, já conseguia ir ao mercado sem comprar os biscoitos preferidos dele por engano. Mas o cheiro... o cheiro desmontava todas as mentiras cuidadosamente organizadas dentro dela.

Porque perfumes guardavam aquilo que as fotografias não conseguem guardar: a sensação de existência.

As fotos mostram o rosto.
A voz pode sobreviver em vídeos.
As cartas preservam palavras.

Mas o cheiro...
o cheiro devolve a ausência inteira.

Anoiteceu sem que ela percebesse. A casa começou a escurecer lentamente, e por alguns segundos teve a impressão de que, se permanecesse imóvel, ele surgiria no corredor perguntando onde estavam as pilhas do controle remoto, como fazia sempre, distraído, vivo, comum.

Não surgiu.

Só o silêncio caminhou pela casa.

Ela dobrou o lenço com cuidado exagerado, como se dobrasse um pedaço do próprio coração, e o guardou novamente na gaveta. Não porque estivesse pronta para esquecê-lo. Apenas porque certas dores também precisam dormir um pouco.

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Silvia Marchiori Buss

 

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