O Luto Tinha Barulho de Chaves...
O Luto Tinha Barulho de Chaves...
Não de portas abrindo.
Nem de chegadas.
Era o som pequeno de metal
se encostando dentro de uma gaveta, de um bolso, de uma bolsa esquecida sobre a
cadeira da cozinha. Um ruído quase sem importância, mas que fazia o peito dela
se comportar como vidro fino dentro de água fervendo.
Depois da morte dele, a
casa começou a falar por ferragens.
As chaves da garagem.
As chaves do portão.
As chaves que ele carregava penduradas numa argola velha, pesada demais para
tão poucas portas.
Durante anos, ela reclamara
daquele barulho.
— Precisa carregar o prédio
inteiro contigo?
Ele ria. Sempre ria antes
de espalhar o som metálico pela casa como quem anunciava chuva no telhado.
Agora o silêncio parecia um
animal grande dormindo nos corredores. E o pior era que, às vezes, no fim da
tarde, ela jurava escutar as chaves outra vez.
Não como lembrança.
Como presença.
O elevador subia.
Algum vizinho fechava a porta.
O vento mexia em qualquer coisa esquecida.
E lá vinha aquele tilintar.
Pequeno.
Cruel.
Doméstico.
O luto não chegou no
enterro. Nem nas flores. Nem nos abraços úmidos de perfume triste. O luto
chegou semanas depois, quando ela encontrou uma das chaves dele dentro do vaso
de samambaias da varanda.
Enferrujada de chuva.
Ela ficou olhando para
aquilo como quem encontra um peixe vivo dentro do armário do banheiro.
Não fazia sentido.
Tentou lembrar se ele mesmo
teria colocado ali. Talvez num daqueles domingos em que inventava consertos
inúteis para fugir do tédio. Talvez tivesse perdido sem perceber. Talvez ela
mesma tivesse colocado e esquecido.
A memória, depois da morte
de alguém, vira uma gaveta bagunçada dentro de um trem em movimento. As coisas
se misturam, trocam de lugar, aparecem onde nunca estiveram.
Ela levou a chave até a
cozinha e deixou sobre a mesa.
Passou a madrugada
observando aquele pedaço de metal.
Uma chave sem porta é um
objeto profundamente triste.
Parece continuar esperando
uma função que já não existe.
Na manhã seguinte,
guardou-a numa xícara antiga. Depois encontrou outra dentro do bolso de um
casaco. Outra na pequena mesa ao lado da cama. Outra entre páginas de um livro
sobre jardins que ele nunca terminou.
As chaves começaram a
aparecer pela casa como sementes trazidas pelo vento.
E ela começou a suspeitar
de algo absurdo:
talvez as coisas não
aceitassem tão rápido o desaparecimento de seus donos.
A poltrona ainda afundava
do lado esquerdo.
O espelho do banheiro continuava embaçando na altura exata do rosto dele.
As plantas inclinavam folhas para o corredor quando o elevador parava naquele
andar.
Até o relógio da cozinha
parecia atrasar nos horários em que ele costumava chegar.
A casa estava
desaprendendo.
E desaprender alguém leva
tempo.
Certa noite, faltou luz no
prédio.
Ela procurou velas na
gaveta da cozinha e, no escuro, ouviu o velho barulho outra vez.
As chaves.
Muito perto.
Tão perto que o coração
dela se levantou assustado dentro do peito, como um pássaro acordado antes da
hora.
Ficou imóvel.
O apartamento inteiro
respirava escuridão.
Então percebeu.
O som vinha dela.
Das próprias mãos.
Sem notar, havia juntado
todas as chaves encontradas nas últimas semanas e as segurava apertadas entre
os dedos.
Ficou parada assim durante
muito tempo, ouvindo aquele pequeno amontoado de metais.
Era estranho pensar que o
amor, depois de tantos anos, pudesse terminar reduzido a ruídos tão pequenos.
Mas talvez nunca tivesse
sido diferente.
As grandes dores sempre
acabam morando em coisas mínimas.
Uma toalha esquecida atrás
da porta.
Uma escova de dentes seca demais.
Uma xícara sem marca recente de café.
Ou o barulho de chaves que já não abrem lugar nenhum.
Na manhã seguinte, ela saiu
cedo.
Desceu até o lago.
A cidade ainda acordava
devagar, com aquele frio azul que parece existir apenas antes das padarias
abrirem.
Levava as chaves dentro do
bolso do casaco.
Pensou em jogá-las na água.
Pensou em enterrá-las.
Pensou em deixá-las sobre
algum banco qualquer, como quem devolve pássaros ao céu.
Mas ficou apenas
caminhando.
Em certo momento, sem
perceber, colocou a mão dentro do bolso e apertou o molho de chaves contra a
palma.
E continuou andando.
Como se ainda existisse
alguma porta.
Silvia Marchiori Buss
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