Num Domingo Qualquer
Ela passou anos tentando entender o instante exato em que precisou entregá-lo para a morte.
Não era uma frase bonita.
Nem aceitável. Muito menos poética.
Mas era a única verdade que
conseguia sustentar sem cair.
Porque foi ela quem segurou
a mão dele quando os dedos começaram a perder a força. Foi ela quem ouviu o
último ruído preso na garganta, como alguém tentando voltar atrás de uma viagem
impossível. Foi ela quem disse, sem voz, sem coragem e sem acreditar:
— Pode ir…
E ele foi.
Depois disso, o tempo não
fez o que prometem nos livros. Não curou. Não fechou nada. O tempo apenas
afastou os dois como continentes antigos que um dia se tocaram.
Ela continuou vivendo.
Aprendeu novos caminhos
para o mercado. Mudou os móveis de lugar. Trocou de chaleira. Passou a dormir
do lado errado da cama porque o lado certo parecia ocupado demais pela ausência
dele.
Os anos fizeram o rosto
dela mudar devagar. Os cabelos. As mãos.
E às vezes vinha um medo
absurdo, quase infantil: e se um dia eles não se reconhecessem mais?
Porque ela mesma já não se
reconhecia em certas manhãs.
Havia dias em que tentava
lembrar da voz dele e encontrava apenas o eco. Em outros, era o contrário:
esquecia completamente o rosto, mas escutava uma risada atravessando a cozinha
como se ele ainda estivesse procurando café.
O amor também envelhece,
ela descobriu.
Não acaba.
Mas muda de temperatura.
Fica mais silencioso.
Mais parecido com aquelas
brasas escondidas sob madeira quase apagada.
Ela pensava nisso num
domingo qualquer.
Um domingo sem importância.
Sem aniversário. Sem data marcada em calendário. O céu tinha uma cor indefinida
entre cinza e dourado, e ela caminhava por uma rua desconhecida de uma cidade
onde nunca estivera antes. Viajara sem motivo claro, como fazem algumas pessoas
quando o coração começa a apertar dentro da própria casa.
Havia uma pequena feira na
praça. Flores. Livros antigos. Crianças correndo atrás de bolhas de sabão.
Ela virou uma esquina.
E parou.
Não porque tivesse visto
exatamente o rosto dele.
Mas porque alguma coisa no
mundo mudou de lugar.
O homem vinha caminhando
devagar, do outro lado da rua, como alguém que também carregava uma memória
pesada nos ombros. Tinha os cabelos mais brancos do que ela lembrava. O corpo
parecia menos firme. As mãos nos bolsos. Um certo cansaço nos olhos.
E ainda assim…
Ainda assim.
O coração dela soube antes
do pensamento.
Soube de uma maneira
brutal.
Como um animal antigo
reconhecendo o caminho de casa.
O homem também diminuiu o
passo.
Os dois ficaram imóveis por
alguns segundos que não cabiam mais dentro do relógio.
Ela quis perguntar:
“É você?”
Mas não perguntou.
Porque talvez aquela não
fosse a pergunta certa.
Talvez o amor verdadeiro
não precise confirmar identidade.
Talvez duas almas que
sobreviveram uma dentro da outra acabem se reconhecendo mesmo depois do corpo,
do tempo, da morte, da distância e das inúmeras versões que a vida obriga a
gente a ser.
Ele atravessou a rua.
Sem pressa.
Como quem teve séculos para
chegar.
Parou diante dela.
Os olhos dele estavam
cheios daquele mesmo silêncio que existia no quarto do hospital antes da última
respiração.
Mas agora não doía.
Agora parecia apenas um
lugar de passagem.
Ela percebeu que não tinha
medo.
Nem da morte.
Nem do esquecimento.
Nem da possibilidade
absurda de amar alguém além da vida.
O homem sorriu de leve,
como fazia quando queria dizer alguma coisa sem usar palavras.
E então ela entendeu.
O reencontro não acontece
quando duas pessoas voltam a ser as mesmas.
Acontece quando, apesar de
terem se tornado outras, ainda existe alguma coisa capaz de atravessar a
esquina primeiro.
Silvia Marchiori Buss
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