De Longe Tudo é Pequeno
Raquel demorou para encontrar a própria casa.
Do alto do morro, os
telhados se confundiam numa sucessão de formas irregulares, e a rua onde
passara tantos anos parecia apenas um risco atravessando a paisagem. Havia
qualquer coisa de desconcertante naquela distância. Como se o mundo tivesse
encolhido sem avisar ninguém.
Ela continuou procurando.
Ali estava a praça. Ou
talvez outra parecida. Ali o prédio de janelas azuis. Ou algum vizinho dele. As
referências que, vistas de perto, pareciam tão sólidas agora vacilavam diante
dos olhos.
Sentou-se sobre uma pedra
aquecida pelo sol da tarde.
O vento passava lento e
suave.
Lá embaixo, centenas de
vidas seguiam acontecendo. Alguém preparava o jantar. Alguém voltava do
trabalho. Alguém fechava uma porta acreditando que nunca mais a abriria. Alguém
ria de alguma bobagem que seria esquecida antes da manhã seguinte .Alguém
nascia e alguém morria.
Dali de cima, ninguém
parecia carregar tragédias.
Ninguém parecia guardar
segredos.
Ninguém parecia passar
noites em claro.
E, no entanto, Raquel
sabia.
Sabia que atrás de cada
janela havia gavetas cheias de fotografias, remédios esquecidos sobre
criados-mudos, contas vencidas, amores interrompidos, promessas feitas em voz
baixa e arrependimentos que nunca encontraram destinatário.
A distância não eliminava
os pesos.
Apenas os tornava
invisíveis.
Ela pensou em quantas vezes
acreditara que certas dores ocupavam um espaço impossível de atravessar. Na
época, pareciam muralhas. Agora, observadas através dos quilômetros de ar que a
separavam da cidade, tinham a aparência modesta das coisas humanas.
Nem enormes.
Nem insignificantes.
Apenas humanas.
Uma ave cruzou o céu
lentamente.
Raquel acompanhou seu voo
até perdê-la entre as nuvens.
O sol começava a mudar de
cor. Os telhados recebiam uma luz dourada que durava pouco, como tantas outras
coisas que pareciam permanentes quando chegavam.
Ela permaneceu ali.
Sem procurar respostas.
Sem fazer balanços.
Sem transformar a tarde em
lição.
Observando.
À medida que a sombra
avançava pelas ruas, pequenas luzes surgiam nas casas. Uma aqui. Outra mais
adiante. Depois dezenas delas.
Pareciam estrelas
espalhadas sobre a terra.
Raquel não encontrou tudo o
que procurava naquele fim de tarde.
Mas continuou olhando para
a cidade acesa, enquanto a noite tomava seu lugar devagar, revelando detalhes
que a claridade jamais mostrara.
Silvia Marchiori Buss
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