Aquilo Que o Tempo Não Consegue Segurar

 Há quem diga que o mais importante da vida é viver o presente.

Mas talvez o presente seja justamente a única coisa que nunca conseguimos alcançar completamente.

Porque agora… neste exato instante… enquanto esta frase termina de ser dita… ela já pertence ao passado.

O tempo não espera sequer o fim de um pensamento.

Desde o momento em que me sentei diante do computador para escrever este texto, aquele instante deixou de existir. O movimento das mãos, o silêncio da casa, a luz entrando pela janela, a respiração entre uma frase e outra… tudo já ficou para trás.

E talvez seja por isso que a vida humana seja feita muito mais de lembranças do que de presente.

Porque o presente escapa.

Sempre escapou.

Tentamos segurá-lo com fotografias, vídeos, cartas antigas, objetos guardados em gavetas, perfumes esquecidos em roupas antigas… mas nada impede o tempo de seguir adiante.

O instante passa.
O corpo envelhece.
As pessoas partem.
As vozes silenciam.

E o que sobra?

As lembranças.

Talvez sejam elas nossa única forma verdadeira de permanência.

Somos feitos da memória de uma infância que às vezes volta inteira através de um cheiro.
Da comida que alguém preparava.
Do som de um portão abrindo.
Da risada de quem já não está mais aqui.

Somos feitos de pedaços de tempo guardados dentro do coração.

Até mesmo nossas dores sobrevivem como lembrança.
E nossas alegrias também.

A felicidade de um abraço.
Uma viagem antiga.
O nascimento de um filho.
Uma conversa simples numa cozinha qualquer.
Uma tarde que parecia comum e que anos depois passa a doer de saudade.

Talvez a vida seja exatamente isso: transformar momentos em memória antes que desapareçam.

Porque o presente mal nasce… e já morre.

Enquanto falamos sobre ele, ele já deixou de existir.

E o futuro?

O futuro é ainda mais distante das nossas mãos.

Planejamos dias sem saber se chegaremos até eles.
Guardamos sonhos para depois.
Adiamos abraços.
Economizamos felicidade como se tivéssemos algum contrato secreto com o amanhã.

Mas não temos.

O futuro pertence ao desconhecido.

Pertence ao invisível.

Talvez pertença somente a Deus.

E nós seguimos no meio desse caminho estreito entre aquilo que lembramos e aquilo que imaginamos viver um dia.

Por isso as lembranças acabam tendo tanto valor.

Elas se tornam uma espécie de morada interior.
Um lugar onde certas pessoas continuam existindo mesmo depois da ausência.
Onde vozes ainda respondem.
Onde alguns instantes permanecem respirando apesar do tempo.

Às vezes uma música abre portas que estavam fechadas há anos.
Às vezes uma fotografia devolve um rosto inteiro.
Às vezes basta o cheiro da chuva para trazer de volta alguém sentado numa varanda antiga.

E talvez seja bonito perceber isso.

Entender que a vida não permanece nas mãos… mas deixa marcas.

O tempo leva quase tudo.
Mas não consegue apagar completamente aquilo que realmente atravessou a alma.

Talvez amadurecer seja justamente aceitar que o presente nunca pode ser segurado… e que o futuro nunca nos pertenceu de verdade.

O que temos são lembranças.

Algumas ferem.
Outras aquecem.
Outras nos visitam em silêncio no meio da madrugada.

E enquanto o amanhã continua pertencendo ao universo… nós seguimos aqui, tentando transformar segundos em algo que mereça permanecer dentro da memória.

Porque no fim… penso que sejamos isso... Um amontoado delicado de lembranças tentando atravessar o tempo.

Silvia Marchiori Buss

 

 

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